SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Quando Gustavo Kuerten tomou de assalto Roland Garros, em 1997, aos 20 anos, derrotando campeões do torneio como Thomas Muster, Ievguêni Kafelnikov e Sergi Bruguera, houve quem questionasse: seria o catarinense capaz de alcançar os seis títulos de Björn Borg na era aberta -ou, ainda, os oito de Max Decugis na fase amadora? Era difícil.

Guga até poderia ter ficado mais perto se não tivesse enfrentado os problemas no quadril que encurtaram sua carreira. Ainda assim, seu tricampeonato o coloca em lugar de grande destaque na história do Grand Slam de Paris.

O que torna as obscenas 14 taças de Rafael Nadal ainda mais impressionantes.

O espanhol chegou à 14ª delas neste domingo (5), em vitória por 3 sets a 0 sobre o norueguês Casper Ruud, parciais de 6/3, 6/3 e 6/0.

Aos 36 anos, levantou de novo o troféu que ergueu pela primeira vez aos 19, demonstrando uma força da qual chegou a duvidar.Ao entrar em quadra, os gritos de “Nadal! Nadal!” não deixaram dúvidas sobre qual a preferência da maioria do público, assim como as bandeiras da Espanha, algumas com a frase “Vamos, Rafael!”.

Ele venceu uma partida em que controlou do início ao fim. Na metade do terceiro set, a linguagem corporal de Casper Ruud era de quem havia desistido da partida. Talvez por causa dos problemas físicos, o espanhol entrou em quadra para decidir logo. Foi o que aconteceu.

“É muito difícil descrever o que sinto. Estar aqui aos 36, competindo no torneio mais importante da minha carreira mais uma vez… Significa muito para mim. Só quero dizer muito obrigado a todos e a Paris”, disse após o título.

“Não sei o que vai acontecer no futuro, mas vou continuar lutando”, completou.

Antes disso, ele já havia reconhecido estar jogando melhor do que esperava nas quadras francesas.

“Busquei um nível que eu pensava já não ter”, disse Nadal, após o triunfo sobre o rival Novak Djokovic, nas quartas de final. Um triunfo que, mesmo com seu histórico quase inacreditável no Aberto da França, era por muitos considerado improvável.

Então líder do ranking mundial e defensor do título, o também veterano Djokovic, 35, havia chegado às quartas sem ter perdido um set. E Nadal, com um problema crônico no pé esquerdo, desembarcou em Paris ao fim de uma preparação problemática, dando sinais de que a competição poderia ser a sua última.

“Aceitaria perder a final em troca de um pé novo”, disse, meio de brincadeira, meio a sério, antes da partida do título.

O horário do jogo, noturno, em tese favorecia o sérvio, já que a umidade da noite torna a quadra mais lenta.

O espanhol, gênio do saibro, gosta da quadra lenta, mas não lenta a ponto de oferecer aos adversários um tempo estendido de recuperação diante de suas pancadas.

Ele brigou pela partida durante o dia e perdeu a batalha, mas não a guerra.

No primeiro game, foi para cima e quebrou o saque de Djokovic. O set inaugural foi decidido rapidamente. O rival exibiu força no segundo, porém foi o lesionado Rafael, que vinha de um triunfo em cinco sets, quem se mostrou mais inteiro, sobressaiu até na parte física e fez 3 sets a 1, 6/2, 4/6, 6/2 e 7/6 (7/4).

Em seguida, o craque de Maiorca superou o alemão Alexander Zverev -que se lesionou no segundo set após derrota no primeiro e viu frustrada sua tentativa de assumir a liderança do ranking, agora do russo Daniil Medvedev- e se colocou outra vez na decisão.

Contra Ruud, 23, provou de novo que, de noite ou de dia, Roland Garros é seu lugar.

“É muito emocionante. Todo o mundo sabe quão importante para mim é jogar aqui. É o torneio mais importante da minha carreira. A torcida foi maravilhosa durante todas as noites, desde o começo da competição”, declarou Nadal, que não construiu seu reinado apenas no saibro parisiense.

Com ao menos um par de títulos em cada um dos outros três campeonatos da série Grand Slam -dois no Aberto da Austrália, quatro no Aberto dos Estados Unidos e dois no tradicional Torneio de Wimbledon-, chegou a 22 taças do circuito Major.

Ninguém ganhou tanto, tendo ficado para trás Djokovic e o suíço Roger Federer, 20 conquistas cada um.

O número 22 parecia inalcançável para o próprio Nadal, que se ausentou do circuito em agosto de 2021 na tentativa de tornar aceitável a mobilidade de seu pé esquerdo.

Após um período de muletas, contraiu Covid-19 e, mesmo devidamente vacinado, relatou dias difíceis por causa da doença, em dezembro.

Em janeiro, ganhava o Aberto da Austrália, em uma virada improvável sobre o jovem Medvedev, 25, assumindo a liderança isolada em triunfos de Grand Slam. Mas havia o asterisco de que Djokovic fora impedido de atuar em Melbourne, na competição que vencera nove vezes, por ter se recusado a se vacinar contra o coronavírus -o sérvio fez questão de apontar isso.

Então, em Paris, Rafael derrubou o favorito (segundo todas as casas de aposta) Novak. E, a caminho do troféu, atingiu um bizarro -os adjetivos hiperbólicos cabem- aproveitamento de 97,4% em Roland Garros. Foram 112 triunfos e só três derrotas (duas diante de Djokovic, em 2015 e 2021, e uma zebra histórica contra Robin Soderling, em 2009).

Nadal é, sem dúvida, um dos grandes da história do tênis. E Roland Garros é seu templo.

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