ALFREDO HENRIQUE – SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)

O corpo encontrado em uma carroça, por volta das 8h50 de sábado (17), na região central da capital paulista, é do soldado Daniel Alves de Lima, 32, segundo a polícia. O PM foi encontrado morto e sem roupas, quando seu corpo era transportado por quatro homens, perto da cracolândia. O policial militar havia desaparecido no dia anterior. Ele estaria realizando trabalho de evangelização naquela região.

Policiais militares faziam ronda pelo viaduto Orlando Gurgel, no bairro Campos Elíseos (centro), quando avistaram, por volta das 8h50 de sábado, um cozinheiro, de 35 anos, e três homens, de 26, 32 e 37 anos, empurrando uma carroça, geralmente usada por coletores de materiais recicláveis. Os quatro foram abordados em seguida.

O quarteto, segundo a PM, primeiro afirmou transportar entulho na carroça. Após os policiais pedirem para ver o que era levado, o cozinheiro teria ficado nervoso. A reação do suspeito foi justificada após os PMs encontrarem, entre cobertores, o corpo do soldado Lima.

O policial estava sem roupas, com ferimentos na região da cabeça, nariz, costas e braços, que também estavam amarrados, da mesma forma que as pernas e o pescoço, segundo a polícia. A reportagem apurou que na testa do PM morto havia uma marca de sola de sapato, feita, provavelmente, enquanto o policial era supostamente agredido. Segundo o Instituto Médico Legal, a causa da morte de Lima foi asfixia mecânica, por constrição e politraumatismo. Ao constatar o corpo na carroça, até aquele momento não identificado, os PMs prenderam os quatro suspeitos, levados na sequência ao 2º DP (Bom Retiro).

Na delegacia, o quarteto teria alegado desconhecer que transportava um corpo na carroça. Os argumentos, no entanto, não convenceram o delegado Luiz Renato Gardenal Monaco, que indiciou os quatro em flagrante, por homicídio qualificado (meio cruel).

As prisões em flagrante foram convertidas para preventivas, ou seja, por tempo indeterminado, de acordo com o TJ-SP (Tribunal de Justiça de São Paulo).

Ainda no distrito policial, foi constatado que três dos presos contam com passagens criminais anteriores por furto, roubo e tráfico de drogas. A motivação para o assassinato ainda é investigada pela Polícia Civil.

CÂMERAS

Após a prisão dos suspeitos, investigadores localizaram câmeras, nas quais é possível ver a carroça sendo empurrada pelos homens que foram presos.

De acordo com as imagens, três dos criminosos empurram a carroça, às 8h11 do sábado, pela alameda Barão de Piracicaba, também na região central. Um quarto suspeito aparece alguns metros atrás, como se desse cobertura ao trio. “Ressalte-se que a referida alameda trata-se de uma das vias que serve de percurso para os indivíduos que deixam a região conhecida como cracolândia [ponto de venda e consumo de drogas]”, diz trecho de boletim de ocorrência.

Além disso, ainda de acordo com a polícia, o soldado teria sido morto instantes antes de seu corpo ser encontrado na carroça. “Registre-se ainda que inexistia rigor cadavérico, sugerindo que a morte teria ocorrido recentemente”, diz outro trecho do documento policial.

Nas redes sociais, o policial militar divulgada ações evangelizadoras, realizadas por ele em dias de folga. O soldado trabalhava no 18º Batalhão da PM de Presidente Prudente (558 km de SP).

Em uma postagem do último dia 10, o PM afirma ter saído de um templo para abordar pessoas na rua, especificamente na região da praça da Sé, no centro da capital paulista. “Só quem já pregou aqui [Sé] sabe o que é ministrar em meio às legiões de demônios, drogados, alcoólatras, prostitutas etc”, escreveu o policial. Ele, porém, afirma em seguida ver ali “um cenário para falar de Jesus Cristo”, além de acrescentar “ter nascido para evangelizar.”

A PM afirmou que o soldado Lima “possivelmente” fazia evangelização na região da cracolândia na véspera do encontro de seu corpo. “O caso está em investigação na Polícia Civil, com o apoio da Polícia Militar”, afirma trecho de nota.

O corpo do PM começou a ser velado, às 10h desta terça-feira (20) na sede da Igreja Assembleia de Deus, em Presidente Prudente. Ele seria sepultado no cemitério São João Batista, na mesma cidade.

PMS MORTOS

No primeiro semestre deste ano, cinco policiais militares morreram, fora de serviço, na capital paulista. Já no estado, durante o mesmo período, foram 12 mortes do tipo. Os dados são da SSP (Secretaria da Segurança Pública), gestão João Doria (PSDB).

Considerando o mesmo período do ano passado, quando foram mortos na capital seis PMs de folga, além de outros sete em todo o estado, houve, respectivamente, queda de 16,6% e alta de 71%.