Ezequiel Ceccato, da Sapataria Expressa, aprendeu o ofício com o pai

Recentemente dois tradicionais comércios de Rio Claro anunciaram o fim das atividades deixando saudade entre clientes, colaboradores e moradores da cidade. Mais do que pontos de venda e atendimento, esses estabelecimentos construíram histórias marcadas pela confiança conquistada ao longo do tempo e pelo compromisso com a comunidade.

Um desses lugares é a Sapataria Expressa localizada na Rua 2, esquina da Avenida 10. Por lá, nesta semana, a reportagem do Jornal Cidade encontrou o proprietário Ezequiel Ceccato terminando de guardar os objetos e pertences que eram seus companheiros de ofício. A decisão de finalizar os atendimentos veio de forma consciente, pensada junto com a família e com o objetivo de ter um tempo de mais qualidade e sem tantos compromissos com horário: “O comércio prende muito a gente, é algo que precisa se dedicar. Perdi as contas de quantas vezes eu chegava às 7 da manhã e ia embora 8 da noite sem horário de almoço. Teve dias que eu levantava às 4 da manhã para adiantar serviço então chega uma hora que o corpo sente mais. Faço acompanhamento cardiológico por conta do histórico da minha família com as perdas do meu pai e irmão em razão disso então nos últimos tempos não estava mais podendo fazer muito esforço. Acredito que agora é hora de me cuidar e aproveitar”, declara.

Ezequiel finaliza um legado no ramo iniciado pelo pai, seu Bruno Ceccato: “Meu pai começou a aprender tudo o que me ensinou como funcionário da fábrica de calçados Reginatto, em 1949. Até que chegou um momento que ele decidiu montar o negócio próprio na nossa casa na Rua 9 com a Avenida 11, bairro Boa Morte. Algum tempo depois alugou um espaço no quarteirão da frente e de lá ele veio para o Centro, na Avenida 4, em um porão, sempre com o nome Sapataria Expressa. Eu e meu irmão Daniel depois um tempo ajudávamos mas em 86 assumimos o negócio. Até que em novembro de 1997 meu irmão faleceu aos 40 anos e em janeiro de 1998 perdi meu pai. Ele estava com 67 anos. Foi tudo muito próximo e triste, senti bastante. Fiquei sozinho no local, arrumei um funcionário para me ajudar e depois em 2004 me mudei para o ponto onde fiquei até hoje”, relembra.

Ezequiel afirma que é muito grato a tudo o que viveu como sapateiro: “Tudo na nossa vida tem um tempo e acredito que está na hora de vivenciar outras coisas que em função da profissão sempre ficaram em segundo plano. Vou levar no coração cada cliente e amigo que fiz ao longo de todos esses anos. Agradeço também a minha família que sempre me apoio, ao Jornal Cidade também que em muitas oportunidades esteve junto com a gente em datas especiais. Encerramos um capítulo, um ciclo e que o novo também possa trazer muitas alegrias”, conclui. 

“O maior patrimônio da loja é a freguesia”

Hélio Picarelli, proprietário da Casa das Meias, agradece aos clientes e amigos ao decidir encerrar um ciclo no comércio

Hélio Picarelli, da Casa das Meias, afirma que trabalhar no comércio sempre foi muito gratificante

Perto de completar 90 anos, seu Hélio Picarelli tomou uma decisão que pesou no coração mas que era preciso. Encerrou as atividades na centenária Casa das Meias, localizada na Avenida 3, entre as Ruas 6 e 5, Centro. Ele não foi o fundador mas nos anos 70 adquiriu o comércio e o reativou o colocando como um dos principais no segmento na cidade de Rio Claro.

“Eu sempre tive paixão por trabalhar em comércio. Comecei com 11 anos trabalhando na Casa das Novidades e esse ofício sempre foi minha combustão. Eu acho o comércio muito legal porque ele é dinâmico. Construí uma estrada longa onde fiz mais que clientes, fiz amigos. Fazia questão de estar diariamente no meu comércio. Era o dia todo conversando com viajantes, funcionários, consumidores, isso era maravilhoso”, conta.

Com uma vida dedicada ao trabalho e tendo visto várias gerações passar por seu comércio, ele conta que quando decidiu fechar a loja ouviu muitos pedidos para que não o fizesse: “Hoje praticamente não temos mais lojas da cidade, é tudo rede que se instala no município. Então nossos clientes e amigos gostavam do ambiente acolhedor e família que sempre tivemos. Sempre fazia questão de dizer para os meus funcionários que o ‘maior patrimônio da loja é a freguesia’ e por isso o meu respeito por todos que estiveram com a gente em todos esses anos”, declara.

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