Ser portador de deficiência, felizmente, deixou significar uma existência resumida a impossibilidades, infelicidade e de marginalização profissional. Ainda há muito preconceito, desrespeito a direitos essenciais, como acessibilidade, por exemplo. Mas, na ‘Reportagem da Semana’ deste domingo (5), é possível perceber que muitas dessas pessoas com deficiência compensam injustiças, limitações e discriminação com muita perseverança e garra, para se tornarem cidadãos autônomos e profissionais realizados, com uma vida plena e feliz.

E que bom que é assim, porque recente levantamento do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) aponta que 8,4% da população brasileira acima de 2 anos – o que representa 17,3 milhões de pessoas – têm algum tipo de deficiência. 

A pesquisa detalha que 7,8 milhões, ou 3,8% da população acima de dois anos, apresentam deficiência física nos membros inferiores, enquanto 2,7% das pessoas têm nos membros superiores. Já 3,4% dos brasileiros possuem deficiência visual; e 1,1%, deficiência auditiva. Já 1,2% – ou 2,5 milhões de brasileiros – têm deficiência intelectual.

Entre a população com algum tipo de deficiência, 10,5 milhões são mulheres (9,9%), frente a 6,7% milhões de homens (6,9%). O estudo ainda detalha a proporção de pessoas com alguma deficiência entre as etnias: 9,7% eram pretas, 8,5% pardas e 8% brancas.

Rodas ao infinito, e além

O engenheiro Yves Carbinatti, de 34 anos, atual secretário municipal de Esportes e Turismo de Rio Claro dá um show quando o assunto é autonomia. O rio-clarense assumiu a pasta no começo da gestão Perissinotto. Na política, está envolvido desde 2017 quando foi vereador

Yves sofreu um acidente automobilístico em 2008, quando lesionou a sua coluna, o que o tornou paraplégico (sem movimentos nos membros inferiores) e cadeirante. “Eu estava dormindo no banco de trás do carro. Meu amigo estava dirigindo, também acabou dormindo e perdeu o controle do veículo”, relembra.

No entanto, isso não foi impedimento para continuar nos esportes, atividade que realizava desde muito pequeno, e em que neste ano de 2021, completou 31 anos de carreira.

Atleta em múltiplas modalidades

O esporte ganhou ainda mais espaço na vida de Yves, justamente após o acidente. “Comecei aos três anos de idade, com natação. Aí, não parei mais. Passei por atletismo, judô, ginástica olímpica, handebol, vôlei, basquete, futebol, futebol de salão, entre outros. A família toda me dava apoio. Quando sofri o acidente, com 21 anos, não quis parar. Já na cadeira de rodas me tornei piloto de kart e de automobilismo, que era um sonho de criança, que consegui realizar depois de estar nessa condição. Pilotei na categoria de kart adaptado, na Stock Car Jr, entre outras. Também depois do acidente, fui graduado da faixa roxa para a marrom de jiu jitsu na faixa marrom para a preta – me tornando um dos primeiros cadeirantes faixa preta do mundo. É uma honra, um orgulho ser da cidade e levar o nome de Rio Claro mundo afora”, afirma.

Yves conta que o maior obstáculo não é a limitação física, e sim a questão do preconceito. “Hoje, pelo fato de como atleta eu ter uma vida saudável, tenho condições de fazer muitas coisas. O mais difícil hoje, das pessoas com deficiência, no meio social, é a questão do preconceito, que infelizmente existe. Mas eu falo que nós temos que quebrar essas barreiras e não nos vitimizamos. Eu trabalho, estudo, treino, faço reuniões, tudo que gosto de fazer e o que preciso. Temos que parar com esse medo de pedir ajuda. Se tiver escada, vou pedir ajuda e vou chegar nos lugares. Como atleta, como ser humano, vejo que o mundo está aí para todos viverem de qualquer forma”, conclui.

Além do que os olhos podem ver

Andersom Alberto Boim, 52 anos, hoje é aposentado, mas fez carreira como gerente de assistência técnica no ramo automotivo. Perdeu 100% da visão há sete anos, por conta de uma retinopatia diabética – causada por danos aos vasos sanguíneos no tecido da parte traseira do olho (retina). Em 2010, perdeu a visão do olho direito. Em 2014, perdeu a do olho esquerdo também. Tudo em meio a muitas idas e vindas a clínicas e hospitais.

“Fiz duas cirurgias no olho direito, por conta do sangramento da retina. Ela começou a descolar e colocamos o óleo de silicone para manter ela no lugar. Dois meses depois, tive uma complicação e acabou soltando de vez.”, conta ele. “A segunda cirurgia não deu certo. No olho esquerdo, fiz sete cirurgias para tentar recuperar a visão. Nenhuma me deu ganho de visão. Primeiro eu enxergava durante o dia na claridade. Aí, quando faltava luz natural, não enxergava nada”, descreve.

Primeiros meses sem a visão

“Nos primeiros meses foi complicado. Trabalhava fora de casa, numa concessionária. Aí, parar com tudo, foi difícil. Sentei no sofá com minha esposa e disse para ela que minha condição era essa e que tinha duas escolhas: ou lamentar ou seguir em frente. Ela disse que estava do meu lado na minha caminhada”, recorda ele, que garante nunca ter sentido raiva pelo que estava passando. “Jamais me revoltei com tudo isso. Fui negligente com minha saúde à época. Por conta de não enxergar, batia nos cantos dos móveis, me cortava, me machucava. Mas hoje faço tudo em casa, inclusive pequenos reparos, lavo louça, cozinho, faço uns risotos maravilhosos. Saio para pescar. Vivo muito bem”, garante.

Hoje Andersom diz que enxerga e vive a vida com outros olhos, os da sensibilidade e otimismo. Ele toca violão e contrabaixo. É seu passatempo, assim como a companhia do cachorro, Jony. Aprendeu a usar tablet, celular, televisão, tudo por comando de voz. E aprendeu, sobretudo, a compreender a deficiência de uma forma muito diferente.

“Quando você não tem deficiência, você fica indiferente em relação a isso. O meu pensamento era: coitado, tadinho. Não consegue enxergar. É limitado. Depois que perdi a visão, eu mudei muito. Tive pessoas na minha vida que me ajudaram nessa adaptação. Hoje, percebo que não somos coitados. As pessoas olham para a gente com dó. Um dia fui num restaurante e o garçom teve um cuidado excessivo comigo. Achei bacana da parte dele, mas não precisava disso tudo. A limitação da gente está na cabeça. A gente faz o que a gente consegue e quer. A deficiência não limita as pessoas. Somos normais que temos uma condição e não uma doença”, conclui.

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