Êxodo Urbano: da monocultura à agricultura familiar

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Por Antonio Archangelo

Agricultura Familiar em Rio Claro/SP
Agricultura Familiar em Rio Claro/SP

Os números oficiais do setor agrícola da região que abrange o Escritório de Desenvolvimento Rural (EDR) de Limeira, as quais pertencem os municípios de Analândia, Araras, Cordeirópolis, Corumbataí, Ipeúna, Iracemápolis, Itirapina, Leme, Limeira, Pirassununga, Porto Ferreira, Rio Claro, Santa Cruz da Conceição e Santa Gertrudes atingiu o valor de R$ 1.164 bilhão no ano passado, conforme dados do Instituto de Economia Agrícola repassados ao JORNAL REGIONAL.

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CANA-DE-AÇÚCAR

cana-de-acucar

Em 1995, o valor da produção agrícola local era de R$ 326.4 milhões. A monocultura, sobretudo, a ligada ao setor canavieiro dominam as estatísticas, para se ter uma ideia, no ano passado, 56% da balança agrícola da região eram referentes à cultura de cana-de-açúcar com valor estimado de R$ 654.689.836,68 para uma produção de 10.386.956 toneladas comercializadas no preço médio de R$ 63,03 a tonelada.

Em 1995, o valor da produção foi de apenas R$ 144.858.155,00; com produção de 10.421.450 toneladas comercializadas a R$ 13,90/tonelada.

Cana

CAFÉ

cafeinterno

A região que deve o desenvolvimento aos números expressivo do setor rural, teve que se reinventar no passar dos anos, devido a crise de culturas que ajudaram a moldar a história brasileira. Entre eles está o  café; a “locomotiva” do desenvolvimento econômico e social da região, entre os séculos XVIII e XIX. De  1995 a 2014, a produção perdeu a relevância conforme os números do Instituto de Estudos Agrícola, o IEA.

Em 1995,  o valor da produção colocou a cultura em 15º no ranking, com  valor de produção estimado em R$ 2,4 milhões,  oriundo da comercialização de 18,7 mil sacas do produto. Em 2014,  o Café subiu para a 10ª posição, com valor de produção de R$ 12,8 milhões, advindos com a comercialização de 31,7 mil sacas de café beneficiado.

Cafe

LARANJA

laranja

A laranja trouxe a riqueza e conquistou espaço nas últimas décadas. Porém, de acordo com os números do Instituto de Economia Agrícola (IEA), a produção encolheu. Em 1995, por exemplo, a produção de laranja para indústria e mesa ocupava a 2ª e a 3ª colocações em relação ao valor da produção na Região do Escritório de Desenvolvimento Rural de Limeira, região localizada no chamado “cinturão citrícola comercial”.

No citado ano, a produção da laranja para indústria chegou a casa de 18.9 milhões de caixas de 40,8kg; já a laranja de mesa registrou produção de 8,1 milhões de caixa de 40,8kg. Um valor de produção de R$ 34.234.023,25 e R$ 27.235.908,00, respectivamente. Na época o preço da caixa era comercializado em R$ 1,81.

No ano passado, a cultura ocupou a 3ª e 7ª posições no ranking de valor de produção, com produção de 8.08 milhões de caixas de 40,8kg para a laranja destinada a indústria e 1.8 milhão de caixas para a laranja de mesa. Redução de 57,26 e 77,36 respectivamente. Mesmo assim, o valor da produção aumentou. Com preço médio de R$ 8,98 a caixa de laranja para indústria e R$ 13,45 a caixa de laranja para a mesa, o valor da produção saltou em 111% da laranja para indústria chegando a casa de R$ 72,5 milhões. O valor da produção da laranja de mesa encolheu 9,4%.

Laranja (1)

 

AGRICULTURA FAMILIAR

Fui para São Paulo, sai do campo, me formei eletricista, com a aposentadoria comprei um sítio em Ferraz, voltei para Rio Claro e retornei a agricultura. Exemplos como o de José Alves Roso, 74 anos, vêm se tornando comum nas áreas rurais das cidades da região. O motivo, segundo ele, é a “revolução” provocada pelo incentivo governamental em se estimular a chamada “agricultura familiar”.

“Antes não tinha outra opção, tínhamos que arrendar ou vendar as terras para as usinas, muitos saíram da zona rural para a cidade. Hoje, mudou da água pro vinho. O produtor com três mil metros pode emprestar dinheiro para iniciar uma produção familiar, com até dois funcionários e faturamento anual de R$ 130 mil, o que gerará um salário para sua família de cerca de R$ 3 mil/mês. Ele ainda pode vender o excedente da produção que não foi direcionado aos programas como o Programa de Aquisição de Alimentos ou o Programa Nacional de Alimentação Escolar e tirar seu sustento”, defende.

José é o atual presidente da Cooperativa dos Agricultores Familiares de Rio Claro e região, englobando os municípios de Araras, Leme, Limeira, Corumbataí, Ipeúna, Charqueada, Analândia, Cordeirópolis, Santa Gertrudes, Iracemápolis e Ipeúna. Já são 97 associados e a expectativa é chegar aos 250 existentes. As estimativas é que através da cooperativa, foram comercializados entre hortaliças e leguminosas 1,2 toneladas de produtos, um valor de produção de R$ 2,5 milhões.

“O sistema de cooperativa deu certo da Europa e também deu certo no sul do país. Com 3, 10 mil metros de área, o agricultor familiar está produzindo para entrar na cooperativa e tirar o sustento da família. Por exemplo, o produtor providencia a sua DAP – Declaração de Aptidão ao Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar e se associa na cooperativa. Com este documento ele pode financiar, os valores iniciais para custear a produção e começará a pagar na colheita. Por exemplo, na alimentação escolar, um produtor sozinho não conseguiria vender a demanda de cinco toneladas por semana, com a cooperativa ele consegue atender as 96 escolas de Rio Claro”, afirma em tom otimista. “Nossos planos são de expandir, comercializar nosso alimentos para a penitenciária. Não estamos dando conta de atender a demanda. Precisamos de novos cooperados. Logo, quando cheguei em Rio Claro, me recordo que nenhum sacolão, ou mercado tinham produtos locais. Comecei com o tomate cereja, em 2004, hoje, graças a Deus as coisas estão mudando, só não estamos mais fortes porque não temos produtos suficientes para atender as todas as cidades”, pontua o agricultor de Ferraz.

agricultura familiar
De acordo com a Prefeitura de Rio Claro, são investidos cerca de R$ 1.100.000,00 por ano em produtos da agricultura familiar. Os produtos são adquiridos de até 160 produtores da agricultura familiar de Rio Claro, todos integrantes da Cooperativa. Os produtos são utilizados majoritariamente pelo setor de Alimentação Escolar, que é responsável pela comida servida nas escolas da rede municipal e estadual, além dos projetos sociais. O setor de Alimentação Escolar oferece cerca de 50.000 refeições por dia. A estimativa da Secretaria Municipal de Agricultura, Abastecimento e Silvicultura de Rio Claro é de que o município tenha cerca de 800 propriedades que se enquadram no perfil da agricultura familiar.

Deputada Márcia Lia (PT) e a vice-prefeita de Rio Claro, olga Salomão (PT)
Deputada Márcia Lia (PT) e a vice-prefeita de Rio Claro, olga Salomão (PT)

Para a Deputada Estadual Márcia Lia (PT), defensora da agricultura familiar na Assembleia Legislativa, o programa começou em 2003 com R$ 2 bilhões e vem crescendo a cada ano. “Enquanto todos os setores tiveram queda, a presidente Dilma anunciou que no Plano Safra 2015/2016 um aumento de R$ 24 bilhões para R$ 28,9 bilhões”, cita argumentando que a ampliação da agricultura familiar depende da Reforma Agrária, “que as terras do Estado sejam efetivamente repassadas para o povo”. “É impressionante, é só dar um pedaço de terra, às vezes com pouca assistência técnica e o agricultor familiar produz. Podemos ser o celeiro do mundo”.

José Alves Roso - presidente  da Cooperativa dos Agricultores Familiares de Rio Claro e região, englobando os municípios de Araras, Leme, Limeira, Corumbataí, Ipeúna, Charqueada, Analândia, Cordeirópolis, Santa Gertrudes, Iracemápolis e Ipeúna.
José Alves Roso – presidente da Cooperativa dos Agricultores Familiares de Rio Claro e região, englobando os municípios de Araras, Leme, Limeira, Corumbataí, Ipeúna, Charqueada, Analândia, Cordeirópolis, Santa Gertrudes, Iracemápolis e Ipeúna.

JOSÉ ALVES ROSO
“Mudou muito da água para o vinho, hoje existem políticas públicas como o PNAE (Programa Nacional de Alimentação Escolar) e o PAA (Programa de Aquisição de Alimentos) o que ajuda muito o pequeno agricultor, conseguindo tirar o sustento da família”

Secretário de Agricultura de Rio Claro, Carlos Alberto De Lucca
Secretário de Agricultura de Rio Claro, Carlos Alberto De Lucca

DE LUCCA
São cerca de 17 setores da agricultura e cerca de 7 mil pessoas envolvidas nessa cadeia. Nosso objetivo é integrar a região rural de Rio Claro. Vamos ser os pioneiros em unir o segmento e, juntos, caminharmos para o desenvolvimento da sociedade”

Diretor da Casa da Agricultura de Rio Claro (CATI/Limeira) - Eneas Ferguson
Diretor da Casa da Agricultura de Rio Claro (CATI/Limeira) – Eneas Ferguson

ENEAS FERGUSON
“São pequenos agricultores que estão fixados no campo. Produzem de forma natural, uma força muito grande no campo. O governo vem dando incentivo. Acho muito importante, já que são responsáveis pela produção de grande parte dos alimentos das cidades brasileiras”

 

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