Fenômeno voltou a ser registrado no Pacífico Equatorial e pode atingir forte intensidade entre o fim de 2026 e o início de 2027 (Foto: Divulgação)
Relatório oficial aponta risco de magnitude histórica para o fenômeno El Niño e exige ações preventivas na infraestrutura urbana e rural
A confirmação oficial do desenvolvimento do El Niño de forte intensidade para o decorrer de 2026, emitida pela Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), colocou centros meteorológicos e o setor de Engenharia em alerta máximo no Brasil e no mundo. O fenômeno climático, marcado pelo aquecimento excepcional e já consolidado das águas do Oceano Pacífico Equatorial, passa a exigir a aplicação imediata de soluções estruturais, sistemas robustos de drenagem urbana e conservação de solo para mitigar o risco iminente de enchentes, deslizamentos e secas extremas.
O cenário mudou rapidamente desde maio, quando a NOAA estimava em 82% a probabilabilidade de consolidação. Hoje, o El Niño de forte intensidade já é um fato, deslocando o debate técnico exclusivamente para a sua escala de força. No relatório oficial divulgado nesta quinta-feira (11), o órgão declarou o evento como oficialmente ativo e apontou um risco de 63% de que ele atinja uma magnitude histórica, equiparando-se às maiores anomalias climáticas observadas nos últimos 76 anos.
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O meteorologista Carlos Raupp, professor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP) e conselheiro pelo Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de São Paulo (Crea-SP), explica que os modelos climáticos já indicam o estabelecimento do cenário. Segundo Raupp, as previsões probabilísticas sazonais das anomalias de temperatura da superfície do mar apontam para a consolidação desse episódio, concentrando as atenções agora na definição exata de sua intensidade.
Impactos do El Niño de forte intensidade nas cidades e no campo
Além do monitoramento meteorológico, a atuação integrada das Engenharias, Agronomia e Geociências é fundamental para mapear sensibilidades, orientar políticas públicas e desenvolver soluções capazes de reduzir os impactos. Por reunir profissionais responsáveis pelo monitoramento climático, planejamento territorial, infraestrutura urbana e gestão de riscos, o Crea-SP acompanha o debate técnico sobre os efeitos desses fenômenos e as medidas que podem ampliar a segurança da população.
Nas áreas urbanas, fenômenos climáticos severos podem provocar alagamentos, deslizamentos, enxurradas e danos à infraestrutura. Já nas áreas rurais, períodos prolongados de chuva ou seca podem comprometer o solo, o abastecimento hídrico e a produção agrícola. No Brasil, os reflexos do El Niño de forte intensidade costumam variar conforme a região. O especialista aponta que essas alterações incluem chuvas acima da média na região Sul, chuvas abaixo da média nas regiões Norte e Nordeste, e maior irregularidade das chuvas na região Sudeste.
Para a diretora técnica do Crea-SP, engenheira agrônoma Gisele Herbst Vasquez, professora da Universidade Brasil (UB), mudanças climáticas intensas podem afetar diretamente tanto áreas rurais quanto urbanas. No campo, o maior risco é a quebra de safras, o que afeta a renda do produtor rural, gera inflação e ameaça a segurança alimentar da população. Nas cidades, chuvas intensas e ventos fortes podem causar alagamentos, queda de árvores e danos à infraestrutura urbana.
Técnicas de conservação de solo e engenharia de drenagem
Segundo Gisele, técnicas de conservação de solo e planejamento territorial estão entre as principais ferramentas para diminuir esses impactos. Práticas como plantio direto, terraceamento e drenagem funcionam como uma espécie de esponja natural, reduzindo enxurradas, aumentando a infiltração da água e ajudando a prevenir desastres.
Em áreas sujeitas a enchentes e deslizamentos, o planejamento urbano e o monitoramento também são fundamentais para minimizar danos e proteger a população. Para o engenheiro civil Hassan Mohamad Barakat, gerente do Centro de Gerenciamento de Emergências Climáticas (CGE) da cidade de São Paulo e conselheiro do Crea-SP, cenários climáticos mais intensos exigem reforço em drenagem urbana e atenção especial a áreas mais vulneráveis. Encostas urbanizadas, margens de rios e áreas densamente ocupadas não possuem infraestrutura adequada. O risco aumenta principalmente durante períodos de chuva intensa e infiltração do solo.
Na avaliação de Barakat, soluções de Engenharia e planejamento urbano ajudam a absorver parte do impacto provocado pelas chuvas extremas. Sistemas de drenagem urbana dimensionados corretamente, piscinões, infraestrutura verde e recuperação de áreas de várzea ajudam a ampliar a capacidade de escoamento da água e aumentar a resiliência das cidades. O especialista também ressalta a importância do mapeamento de áreas de risco, que combina levantamentos em campo, imagens de satélite, geotecnologias e análises geológicas para identificar locais vulneráveis a enchentes, enxurradas e escorregamentos.
Adaptação de projetos e normas construtivas no Brasil
Além destas medidas, especialistas também avaliam como eventos climáticos mais severos gerados pelo El Niño de forte intensidade podem afetar edificações e estruturas urbanas. O aumento da intensidade dos ventos, por exemplo, tem levado profissionais a reavaliar critérios de projeto adotados historicamente no país.
Para o engenheiro civil Joni Matos Incheglu, professor da Universidade de Mogi das Cruzes e coordenador do Comitê de Engenharia Condominial do Crea-SP, o aumento da frequência destes eventos exige um novo olhar sobre os critérios utilizados em projetos e construções. Quando a velocidade do vento dobra, a pressão sobre a fachada quadruplica. Em situações de rajadas excepcionais, isso pode causar danos desproporcionais, arrancando telhas, descolando painéis de fachada e comprometendo vidros subdimensionados.
Segundo Joni, países que convivem historicamente com furacões e tufões já adotam normas construtivas mais rigorosas voltadas à resiliência das edificações. No Brasil, algumas regiões também começam a demandar adaptações diante dos fenômenos. As premissas de projeto que valiam para um clima mais estável precisam ser revistas, pois o que se considerava um evento raro começa a ocorrer com uma frequência muito maior.
Embora os impactos de um eventual El Niño de forte intensidade variem conforme a região e as características locais, especialistas concordam que o acompanhamento climático aliado ao planejamento continuam sendo as principais ferramentas para reduzir riscos. O monitoramento antecipado é crucial para a previsão desses eventos climáticos, o que por sua vez possibilita um melhor planejamento e a adoção de planos de contingência, conclui Raupp.