JOELMIR TAVARES E CAROLINA LINHARES – SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)

O eventual apoio do ex-ministro Sergio Moro a alguma candidatura na eleição de São Paulo passou a ser discutido em bastidores de diferentes campanhas. O peso de uma declaração de voto dele é observado tanto por nomes que cogitam procurá-lo quanto por adversários.

O juiz-símbolo da Lava Jato é visto como o “sonho de consumo” de Joice Hasselmann (PSL), tida como a candidata de maior proximidade com ele. Também alinhado ao “lavajatismo” e à pauta do combate à corrupção, Arthur do Val (Patriota) é outro que se vê com chance de conquistá-lo.

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As duas candidaturas têm feito movimentações discretas com essa finalidade, já que publicamente o ex-ministro, apontado como pré-candidato à Presidência da República em 2022, sinaliza que se manterá distante do pleito deste ano.

Após deixar o governo de Jair Bolsonaro (sem partido) e afirmar que o presidente tentou interferir na Polícia Federal, Moro não se filiou a nenhuma legenda e desconversa sobre planos eleitorais.

Uma hipotética sinalização de apoio, contudo, é tratada como um troféu por postulantes que julgam ter alguma identidade com ele.

Estrategistas admitem que a adesão de Moro tem potencial para impulsionar uma candidatura no campo da direita, embora não chegue a ser um fator decisivo –eleitores identificados com Bolsonaro, por exemplo, rejeitam o outrora aliado, agora tido como inimigo.

O nome de Joice surge com frequência nessas conversas por causa da relação amistosa da deputada federal com Moro, anterior à convivência que os dois tiveram em Brasília.

Jornalista, ela lançou em 2016 o livro “Sergio Moro – A História do Homem por Trás da Operação Que Mudou o Brasil”. Paranaense como seu biografado, Joice acabou virando amiga dele e da esposa, a advogada Rosangela Moro.

Vice em sua chapa, o empresário Ivan Leão Sayeg (PSL) também tem pontes com o ex-juiz. Ele é irmão da empresária do ramo de joias Lydia Leão Sayeg, que exibe em suas redes sociais fotos ao lado de Moro e da mulher, com os quais tem relação de amizade.

Lydia, conhecida pela participação no reality show Mulheres Ricas (Band), se refere ao ex-ministro da Justiça e Segurança Pública como “meu eterno herói nacional”, além de dizer que ele “salvou o Brasil”.

Segundo membros da campanha de Joice, Moro está contribuindo com sugestões no programa de governo dela, em temas como segurança e combate à corrupção.

A ideia é tornar pública a participação dele na formulação das propostas em meados de outubro.

Aliados da deputada federal consideram que o ex-juiz não precisa se expor no início da campanha, mas entendem ser mais provável sua aparição na reta final, o que o deixaria vulnerável por menos tempo a ataques de petistas e de bolsonaristas.

Questionada, Joice não quis comentar. O deputado federal Júnior Bozzella, presidente estadual do PSL, afirma que a colega de sigla não precisa necessariamente de um padrinho “por ser uma figura nacional e com luz própria”, mas lembra que as pautas dela se assemelham às de Moro.

“Não tem outra candidatura que tenha realmente esse viés, esse DNA”, valoriza. “Mas não sei se ele vai participar agora, em 2020, efetivamente”, completa Bozzella.

No comitê de Arthur do Val, o Mamãe Falei, o desejo de receber um aval de Moro passa pela figura de sua vice, Adelaide Oliveira (Patriota), que até alguns meses atrás era porta-voz do Vem pra Rua, movimento que exalta os resultados da Lava Jato.

Adelaide não descarta utilizar o canal comunicação que abriu com Moro para aproximá-lo da campanha, mas trata o assunto com cautela. “Ainda é prematuro fazer esse debate. Não falei com ele sobre isso, não tive esse atrevimento. Ele tem conduzido sua situação de maneira reservada.”

Um dos trunfos pode ser o programa de governo da chapa, que, segundo a ativista, “tem ideias inspiradas no que ele fez” como juiz e ministro.

“Vamos apresentar o programa para pessoas que podem nos apoiar. E ele é uma dessas pessoas”, afirma a vice. “Acho difícil que ele dê apoio a alguém, mas, se isso acontecer, será quando ele tiver clareza das propostas.”

Adelaide diz que uma abordagem agora poderia soar invasiva e que prefere avaliar os sinais do ex-juiz, de quem é fã, antes de qualquer gesto.

No domingo passado (6), o Vem pra Rua foi um dos organizadores de carreatas em apoio à Lava Jato ocorridas em 25 cidades pelo país. Moro chegou a gravar um vídeo de agradecimento aos participantes dos atos.

Arthur, que não quis comentar o assunto, é membro do MBL (Movimento Brasil Livre), grupo que também liderou manifestações pelo impeachment de Dilma Rousseff (PT) e contra a corrupção. Na briga eleitoral, ele se coloca como representante da direita não-bolsonarista.

Na campanha do candidato à reeleição Bruno Covas (PSDB), atual favorito do pleito, a “hipótese Moro” já surgiu em análises de cenário. Assessores do tucano mencionam o aval do ex-juiz a algum dos rivais como um dos elementos que podem prejudicá-lo, ainda que lateralmente.

Por outro lado, Covas também dispõe de canais com Moro. O principal talvez seja o governador João Doria (PSDB), que faz afagos ao ex-ministro –chegou a condecorá-lo com a maior honraria do governo paulista, em junho de 2019, no auge da crise após o vazamento de conversas suas dos tempos de Lava Jato.

O PSDB escalou um interlocutor com acesso ao ex-magistrado para entrar em campo, na esperança de que Moro avalie divulgar apoio a Covas e a outros postulantes tucanos em capitais.

Pesa contra Covas, em um eventual “leilão” pelo endosso, o histórico negativo de seu partido no âmbito da Lava Jato. Para ficar só nos exemplos de São Paulo, caíram nas garras da operação tucanos como o senador José Serra e o ex-governador Geraldo Alckmin.

Procurados, aliados de Covas e de Doria não confirmam uma busca ativa do partido para estreitar laços com o ex-juiz. “Sergio Moro é um cidadão importante, deu uma contribuição ao país e tem o direito de se manifestar”, afirma Marco Vinholi, presidente estadual do PSDB.

Andrea Matarazzo (PSD), por sua vez, tem pontes com o lavajatismo por meio de apoiadores como Janaina Paschoal (PSL) e o advogado Modesto Carvalhosa. No Novo, de Filipe Sabará, Moro tem diálogo com João Amoêdo.
Enquanto parte dos candidatos em São Paulo está de braços abertos para o ex-ministro, aqueles mais identificados com o presidente Bolsonaro ou com a esquerda são hostis à figura.

No PRTB de Levy Fidelix, que sonha em ser o candidato abençoado por Bolsonaro, a avaliação é a de que um apoio de Moro a qualquer nome não alinhado ao presidente vai sacramentar sua posição política de adversário.

Para o PT, seria até positivo tê-lo na arena do debate político, segundo a visão de integrantes da campanha de Jilmar Tatto. O partido se opõe a Moro tanto pela atuação na Lava Jato –que levou o ex-presidente Lula (PT) à prisão–, quanto por sua adesão ao governo Bolsonaro.

Na análise petista, o aval dele a algum nome confirmaria publicamente a tese da legenda de que Moro sempre agiu como um político e candidato, e não como um juiz imparcial.

No entorno de Márcio França (PSB), não foi o nome de Moro que surgiu, mas o de outro ex-magistrado.

Auxiliares lembram que Joaquim Barbosa, ex-presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), é filiado ao PSB e quase foi lançado candidato à Presidência da República em 2018.

Já foi levantada a possibilidade de buscar uma manifestação de apoio, mas a ideia é embrionária e dependeria de acertos. O ex-ministro do STF está recluso e se distanciou do debate eleitoral.

Procurada, a assessoria de imprensa de Moro afirmou à reportagem que ele “não pretende se envolver em eleições municipais”.

Pessoas próximas consideram baixas as chances de que Moro se coloque no xadrez eleitoral deste ano, embora admitam que ele possa contribuir com um ou outro postulante de forma discreta.

Candidatos e Sergio Moro

Joice Hasselmann (PSL)
Amiga e biógrafa do ex-juiz conta com contribuições dele em seu programa de governo

Arthur do Val (Patriota)
Tem em sua vice, Adelaide Oliveira, ex-porta-voz do Vem Pra Rua, uma ponte com o ex-juiz. Campanha se inspirou nele em algumas propostas

Bruno Covas (PSDB)
Tucanos esperam o aceno de Moro a candidatos em capitais, apesar de o partido ter nomes alvos da Lava Jato

Andrea Matarazzo (PSD)
É apoiado por outros nomes ligados ao lavajatismo, como Modesto Carvalhosa

Filipe Sabará (Novo)
Tem em João Amôedo uma ligação com Moro

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