Adriel Arvolea

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Dra. Maria Aparecida Marin Morales, do departamento de Biologia da Unesp Rio Claro

As recentes chuvas conseguiram amenizar os efeitos da seca e trouxeram alívio para cidades paulistas com abastecimento em risco? No Dia Mundial da Água, comemorado neste domingo (22), o Café JC traz entrevista com a Professora Dra. Maria Aparecida Marin Morales, do departamento de Biologia da Unesp – Rio Claro. A especialista comenta sobre a situação dos reservatórios na região e, também, alerta para a necessidade no cumprimento de políticas públicas que garantam a qualidade da água fornecida à população.

Jornal Cidade – Neste momento, qual a situação dos rios e reservatórios de água na região de Rio Claro?

Maria Aparecida – Pelas últimas chuvas, observasse que houve um leve reabastecimento dos recursos hídricos. Digo ‘leve’ porque não é suficiente para tranquilizar enquanto recurso prioritário da vida para o ser humano, bem como em consonância com os demais organismos. Neste sentido, o homem depende de outros organismos para sobreviver. Sem água, há reflexos nos rios, na agricultura, pecuária, enfim, vivemos num sistema misto e complexo que depende essencialmente da água para a sobrevivência.

JC – Há uma estimativa para que o nível dos reservatórios/rios seja restabelecido?

Maria Aparecida – Baseado em estudos, na década de 50 ocorreu uma estiagem drástica. No entanto, os efeitos que estamos enfrentando no momento são, ainda, mais drásticos porque a necessidade por água é maior. A população cresceu, o consumo cresceu e, com isso, exigisse maior quantidade de água. Na década de 50, a situação foi normalizada em cinco anos. Agora, estimativas apontam para um período de cinco a oito anos para que o quadro seja normalizado. Isso se houver chuvas constantes.

JC – Muito se falou a respeito da reserva de água do Aquífero Guarani. O uso deste recurso seria viável para o enfrentamento da seca?

Maria Aparecida – Nós não podemos esgotar todos os recursos hídricos. Se houver escassez total de água, tudo morre. Retirar a água do Guarani seria uma solução, mas é preciso cautela. Dependendo do solo, pode ocorrer deslocamento de terra se retirada a água subterrânea. Para tanto, recomenda-se a elaboração de estudos para não comprometer o sistema de solo. É claro que se não houver outra solução, vai chegar o momento que teremos de repensar o caso.

JC – Outra opção discutida foi o reaproveitamento de água das cavas de argila. Haveria viabilidade para essa alternativa?

Maria Aparecida – Depende do tratamento que se dá para a água. É preciso conhecer o tipo de água, os contaminantes existentes e, assim, estabelecer o tratamento adequado para, posteriormente, disponibilizar o recurso à população.

JC – E se as chuvas forem cada vez mais escassas?

Maria Aparecida – Se isso perdurar, vamos ter problemas sérios. Outro problema é que não adianta ter água se não estiver condizente com a saúde. Ou seja, o que bebemos precisa ter qualidade. Desta forma, precisamos exigir alta qualidade nos tratamentos. Nossas leis ambientais são as melhores do mundo, mas não há fiscalização a contento. No Estado de São Paulo, a água é de boa qualidade, porém a Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) não dá conta de suas obrigações porque limita-se ao pessoal disponível.

JC – A água que chega até nossas casas é de qualidade?

Maria Aparecida – De maneira geral, essa água é de boa qualidade. Não fiz análises, mas dos parceiros e colegas que realizam esse tipo de trabalho, a informação que nos chega é que há qualidade, sim. Às vezes, observa-se um cheiro forte na água da torneira. E isso é de cloração. Acredito que isso requer clorear a água para eliminar os agentes patológicos que possam comprometem a qualidade e a saúde do consumidor.

JC – Diante da estiagem, a classe política ‘acordou’ para o problema?

Maria Aparecida – Não estou vendo grandes ações. Restrição hídrica ou racionamento: qual a diferença? Faltou gerenciamento. Se falarmos em questões públicas, está faltando muito para a água. Consequentemente, não sei no que acreditar. Nós vamos, sim, aprender com tudo isso. Pode ser uma experiência boa para repensarmos a questão.

JC – Como a população e o governo devem colaborar para o enfrentamento da estiagem?

Maria Aparecida – Uma torneira fechada durante a escovação dos dentes e ensaboar-se com o chuveiro fechado são medidas que cada um de nós pode colaborar. Já o governo pensa em construir reservatórios municipais. Mas não podemos pensar na escassez como um evento único, e sim na poluição dos recursos hídricos, o que chega até essas águas. Lixo, odor, cores fortes e outras substâncias são encontradas nas águas dos rios. Para combater isso, as exigências ambientais deveriam passar por maior rigor de resposta. Os órgãos ambientais deveriam exigir mais tratamentos eficientes com multas severas. Com isso, haverá a melhora da qualidade da água. Precisamos agir agora.

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