Jaime Leitão

A primeira vez que eu vi um tigre branco fiquei maravilhado. Foi no zoológico de Madri em 1997. Tirei fotos dele e uma delas incluí em uma exposição que realizei em Rio Claro, Piracicaba e São Pedro.

Mais de vinte anos depois, procuro um filme para assistir da Netflix e encontro um filme indiano que traz como título: “O Tigre Branco”.

Sem ler crítica , fui direto assistir a essa produção indiana, que tem na direção o cineasta  Ramin Bahrani.

O que chama atenção é a imensa distância que lá existe entre os ricos e os mais pobres, que vivem em condições precaríssimas, sem nenhuma infraestrutura. Grande parte da população vive em barracos, sem esgoto e sem banheiro. E há famílias que moram nas ruas das grandes cidades.

Já os ricos, que fazem parte da casta dominante, vivem em mansões e tratam os empregados como quase escravos, vendo-se no direito de bater neles quando por algum motivo não estão satisfeitos com o serviço prestado.

O personagem central, interpretado por Adarsh Gourav, pertence a uma família bem pobre, e se revolta contra a matriarca, sua avó, que quer casá-lo com uma moça da mesma casta, em um arranjo comum nas castas consideradas inferiores.

Ao ir para Nova Delhi, o jovem descobre naquela cidade moderna, cheia de edifícios, a possibilidade de subir na vida, abandonando a miséria e a tradição cultuada há séculos, que tira dos mais jovens a liberdade para fazer suas próprias escolhas.

“O Tigre Branco”, que é raro na natureza, uma exceção, metaforiza o jovem, que, com sua atitude ousada de abandonar as suas origens, também é uma exceção.

A Índia hoje é considerada um dos países mais avançados do mundo em tecnologia e em pesquisas científicas, mas padece ainda do mal de não diminuir a distância entre uma minoria abastada, que maltrata os seus empregados, e uma maioria dominada por hábitos e crenças que os deixam reféns daqueles que, sem nenhum pudor e ética, são capazes das piores atitudes, como fazer parte de esquemas corruptos, para se manter no poder ou próximos deles. Isso lembra certo país.

O jovem que busca um novo caminho também não tem pudor e acaba matando o filho do patrão, que o tratava melhor do que o pai, que era cruel com ele, como se fosse mero escravo.

A luta de classes, que cada vez mais se torna evidente em países com desigualdade social profunda, é apresentada em forma de ficção, em um filme baseado em um romance, mas tem muito de real e serve de alerta para os países que tratam com desprezo os que vivem próximos à linha da pobreza ou até abaixo dela. Leia-se Índia, Brasil e vários outros.

Bom final de semana.

O colaborador é cronista, poeta, autor teatral e professor de redação.

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