Mães de crianças autistas se unem em prol do acolhimento e novo rumo das famílias
Em tempos onde o preconceito muitas vezes chega antes da informação, um grupo de mães tem buscado transformar os desafios do universo do Transtorno do Espectro Autista (TEA) em aprendizado, acolhimento e apoio aos seus filhos. Em meio à rotina intensa de cuidados, terapias, atendimentos e desafios diários enfrentados por famílias de crianças neurodivergentes, mães atípicas de Rio Claro têm encontrado no empreendedorismo uma forma de geração de renda, fortalecimento emocional e construção de rede de apoio.
O trabalho é desenvolvido pela AMMARC – Associação do Movimento das Mães Atípicas de Rio Claro, entidade criada há cerca de dois anos a partir da união de mães de crianças autistas, pessoas autistas e profissionais da área. Segundo a associação, o movimento surgiu da necessidade de acolhimento, orientação e luta por direitos. “O movimento começou de forma estruturada, por meio de grupos de apoio e ações de conscientização, e cresceu até se tornar uma associação sólida, idônea e atuante no município”, explica a entidade.
A AMMARC atua na promoção da inclusão, conscientização e apoio às famílias atípicas, além de buscar políticas públicas, acesso a tratamentos e espaços preparados para receber pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e outras neurodivergências. O trabalho também envolve ações sociais, educativas e fortalecimento das famílias por meio da informação e do acolhimento.
Dentro desse cenário, as feiras e ações empreendedoras passaram a ocupar papel central na vida de muitas mães. A associação, que conta com cerca de 400 mães e quase 700 crianças assistidas, destaca que grande parte delas precisou abandonar ou reduzir a vida profissional para se dedicar integralmente aos filhos.
Empreendedorismo
“Como tudo na associação, primeiro identificamos as necessidades do grupo, depois criamos as soluções”, explicam as dirigentes do Departamento de Empreendedorismo, Marli A. Rodrigues e Verônica Duarte. A partir dessa percepção, foi criado o projeto “Mãos que Acolhem Mães”, inicialmente chamado de “Cuidando de Quem Cuida”, com encontros voltados ao fortalecimento emocional das participantes.
As reuniões passaram a oferecer atividades como dança, música, maquiagem e momentos de troca de experiências. “Promovemos o encontro entre elas, solidificando o propósito primordial da AMMARC, qual seja, proporcionar-lhes um grupo de apoio”, destacam.
A associação afirma que muitas participantes são mães solo e sobrevivem com renda limitada, geralmente proveniente de benefícios sociais. “Como não conseguem trabalhar em empregos tradicionais, optam por produzir o que sabem e comercializar na tentativa de sustentação digna do seu lar”, relatam.
Com isso, foi criado o Departamento de Empreendedorismo da entidade, reunindo as chamadas “Mães Empreendedoras” e também os “Artistas Autistas”. Segundo a associação, muitas mães encontram dificuldades até mesmo para sair de casa para vender os próprios produtos, o que motivou a criação de ações específicas de incentivo e apoio.
Sem apoio financeiro fixo, a entidade também desenvolveu o projeto “Primeiro Passo”, baseado na arrecadação e venda de materiais recicláveis. O recurso obtido é revertido para compra de matéria-prima utilizada na produção dos itens comercializados pelas associadas.
A primeira edição da “Feira Amor em Ação” ocorreu durante a Feira das Nações de 2024, após articulação com a vice-prefeita Maria do Carmo Guilherme (MDB) e com a então responsável pelo setor de empreendedorismo do município, Zenilda Silvério. A participação permitiu à associação ingressar também em grupos municipais de empreendedorismo, ampliando acesso a cursos e feiras – essas acontecem no segundo sábado de cada mês.
“Esses eventos se tornam oportunidades de geração de renda, autonomia financeira e valorização do trabalho dessas mulheres”, afirma Verônica. A entidade ressalta ainda que não recebe qualquer percentual das vendas realizadas durante as feiras. “O objetivo da associação é justamente oferecer espaço, visibilidade e oportunidade para que as próprias famílias atípicas possam complementar a renda e contribuir com o sustento de suas casas, fortalecendo sua independência financeira e autoestima”, pontua Marli.
Em relação aos artistas autistas, a associação informou que atualmente realiza uma exposição anual e trabalha para estruturar legalmente a comercialização das produções artísticas, transformando a arte em fonte de renda para os participantes.
SIGA NO INSTAGRAM: @ammarc.sfl
Com menos de dois anos de existência, a AMMARC destaca que funcionava sem sede própria até abril deste ano e sem recursos financeiros fixos. “Graças ao reconhecimento da população rio-clarense e ao trabalho totalmente voluntário dos seus dirigentes e profissionais que nela atuam, esta associação chegou até aqui”, afirma a presidente da entidade, Joselisa Shinoda.
Os eventos reúnem produtos e serviços desenvolvidos pelas próprias mães, como artesanato, roupas, doces, itens personalizados, acessórios, decoração, cosméticos e alimentação. Algumas participantes também atuam nas áreas de beleza, artes, terapias e atividades educativas.
Além da questão financeira, as feiras se transformaram em espaços de inclusão social, fortalecimento comunitário e conscientização sobre a realidade vivida pelas famílias atípicas. “As mães atípicas enfrentam inúmeros desafios diariamente, como a sobrecarga física e emocional, dificuldades financeiras, falta de acesso a tratamentos adequados, preconceito, exclusão social e, muitas vezes, a ausência de uma rede de apoio efetiva”, destaca a associação.
Para enfrentar esse cenário, a entidade promove grupos de acolhimento, encontros, palestras, eventos e ações comunitárias. Com isso, muitas mães encontram na associação não apenas suporte, mas também pertencimento e esperança. A associação também projeta a ampliação das atividades nos próximos meses.
A AMMARC agora já conta com sede própria, na Avenida 9, 405 – Centro, onde oferece atendimentos e atividades voltadas a crianças e adolescentes com TEA, além de apoio às famílias. O espaço deverá receber ações multidisciplinares, oficinas, grupos de apoio e atividades terapêuticas e educativas. “A expectativa é ampliar gradativamente os projetos e parcerias, promovendo mais acesso, qualidade de vida, inclusão e suporte às famílias atípicas de Rio Claro e região”, conclui a entidade.
