Laboratório de refino da droga e a modelo Lucineia Capra

De laboratório de produção de cocaína a acampamento de famílias “sem-terra”, propriedade rural desperta curiosidade entre leitores

Em 2003, um caso ocorrido em Rio Claro ganhou repercussão nacional. A apreensão de 850 quilos de cocaína (a maior daquele ano em todo o país) e a prisão de uma quadrilha (na posse de armamento de guerra) chamaram a atenção para o laboratório instalado pelos criminosos num sítio localizado já nos limites de Corumbataí, mas que ficou conhecido como sítio das drogas em Ajapi. O caso também ficou conhecido como o da “Loira do Pó”, ou “Loira do Crime”, devido à participação da modelo Lucineia Capra na quadrilha.

A partir daí, o sítio Marimel teria sido encampado como propriedade do governo federal. Após um tempo de abandono, passou a ser ocupado por famílias, mas fontes ouvidas pelo JC informam que até hoje a situação não foi regularizada, portanto não se trata de um assentamento, podendo ser chamado de acampamento.

No site do Fundo Nacional Antidrogas – Funad, um sítio em Corumbataí aparece como uma das propriedades na lista dos imóveis pertencentes ao órgão. Esses bens foram transformados em propriedades da União em decorrência de processos judiciais relacionados ao tráfico de drogas. Somente no estado de São Paulo, são 134 imóveis.

Questionada sobre a atual situação do sítio, a assessoria de comunicação do Incra informou: “Ainda aguardamos informações dos setores responsáveis para uma posição sobre a situação relatada”.

Edição do JC de 2003, que faz parte do acervo do Arquivo Público e Histórico do Município, destaca a prisão da quadrilha e a apreensão da cocaína

Tráfico de drogas: “RC com certeza está na rota caipira”

Em 2017, o caso do “sítio da cocaína” voltou a ter repercussão com o lançamento do livro Cocaína – A Rota Caipira (Editora Record) escrito pelo jornalista Allan de Abreu. Ao traçar o esquema de ação das quadrilhas do tráfico internacional no interior de São Paulo, o autor aborda a trajetória de Luciano Geraldo Daniel, o “Tio Patinhas”, apontado como o chefe da quadrilha que refinava a cocaína no sítio Marimel. A obra foi vencedora do Prêmio Esso de Jornalismo – Interior.

“Luciano Geraldo Daniel, o Tio Patinhas, criou em pouco tempo um poderoso esquema de tráfico de cocaína da Bolívia para a Europa e os EUA. Conseguia transportar toneladas da droga pela rota caipira, no interior de SP, o que estava longe de ser trivial, no início dos anos 2000. A chácara em Rio Claro foi um de seus primeiros entrepostos para armazenar cocaína nessa rota”, relata Abreu.

No livro, o jornalista informa que Luciano foi solto no início desta década e preso poucos meses depois, novamente por tráfico. “Ingressou no PCC, mas não é nem sombra do traficante que foi naquele início de século”.

Questionado sobre o papel de Lucineia Capra na quadrilha, Abreu concorda que a participação inusitada de uma modelo acabou desviando a atenção quando a apreensão recorde de cocaína ganhou a mídia em todo o Brasil, quando na verdade seu marido, Guilherme, apenas gerenciava os negócios do “Tio Patinhas”. O jornalista esclarece que “Lucineia e o marido Guilherme fugiram um pouco antes da deflagração da operação policial, em 2003, e nunca mais foram vistos. Até 2017, ao menos, a ex-modelo seguia desaparecida. Hoje, acredito que ela e o marido estejam mortos, já que ela nunca contatou a família”.

Para Abreu, “com certeza Rio Claro está na rota caipira. Basta situá-la no mapa: às margens da Rodovia Washington Luís, ligando o norte do estado com Campinas e São Paulo. Não tenho dúvida de que muita droga passa pela cidade a caminho dos grandes centros (SP e RJ), vinda do Paraguai e Bolívia”.

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Jornalista Allan de Abreu

Sítio voltou ao noticiário do Jornal Cidade em duas ocasiões em 2020

Em junho deste ano, o JC voltou a abordar o caso da grande apreensão de cocaína ao noticiar a morte de Joaquim Dias Alves. Em 2003, Alves era o delegado seccional da Polícia Civil em Rio Claro e comandou a operação especial da polícia para prender a quadrilha. O delegado, que agora trabalhava como chefe de gabinete na Delegacia Geral da Polícia Civil, em São Paulo, morreu vítima da Covid-19 aos 65 anos.

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Delegado Joaquim Dias Alves (de boné), em 2003, durante a apreensão da cocaína


Morte

No mês passado, o sítio foi novamente citado nas páginas do JC, devido a uma ocorrência policial. Procurado pelo crime de homicídio, Guilherme Pereira de Lacerda, de 30 anos, foi baleado ao reagir à abordagem dos policiais civis e não resistiu. O confronto aconteceu no acampamento das famílias no Marimel, onde, segundo familiares, Guilherme estava vivendo da agricultura. A família do jovem procurou o JC para contestar a versão dos policiais.

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