Café JC: pesquisa ressalta importância de imigrantes em urbanização

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Antonio Archangelo

A pesquisadora e professora universitária Flávia Mengardo Gouvêa durante entrevista realizada no Jornal Cidade
A pesquisadora e professora universitária Flávia Mengardo Gouvêa durante entrevista realizada no Jornal Cidade

Qual a importância da imigração para a formação urbana de Rio Claro? Qual seu impacto e influência até os dias de hoje? Sob este tema, o Jornal Cidade conversou com a pesquisadora formada em Relações Internacionais pela Unesp com mestrado defendido em 2011 em História pela Unesp de Franca, Flávia Mengardo Gouvêa, que realizou o levantamento da imigração em Rio Claro e sua importância para a urbanização da cidade no final do século XIX.

Jornal Cidade – Como chegou a este objeto de estudo?

Flávia – Na graduação estudamos muito história no curso de Relações Internacionais e meu professor José Evaldo de Mello Doin tinha um grupo de estudos sobre a história do café no interior de São Paulo. Ele fez sua livre-docência sobre o interior analisando a modernidade enquanto movimento no interior de São Paulo. Então fui à reunião do grupo Centro de Estudos do Mundo e Urbanização do Café. Neste grupo havia vários pesquisadores que estudavam regiões do interior e acabei fazendo um projeto de iniciação científica sobre Nicolau de Campos Vergueiro, analisando esta época em que Limeira pertencia a Rio Claro.

JC – Qual a importância de Vergueiro para a região?

Flávia – Vergueiro era proprietário da Fazenda Ibicada. Ele criou uma empresa para agenciar a vinda de imigrantes para o Brasil, e aqui essas pessoas vinham trabalhar nas fazendas em regime de parceira, porém esse regime teve muitos problemas, já que os imigrantes alegavam que as condições tratadas não estavam sendo cumpridas, resultando no descontentamento exemplificado, por exemplo, na “Revolta de Ibicaba”. Eles eram obrigados a comprar roupa e alimentos na venda do próprio Vergueiro, ganhavam pouco e ficavam sempre endividados. Vergueiro alegava que os imigrantes não possuíam know-how para trabalhar com a terra, eles vinham de empregos industriais.

JC – Como era Rio Claro no final o século passado?

Flávia – O café que trouxe o dinheiro, e o dinheiro a ideia moderna consolidada com a ferrovia. O comércio do café aqui que gerou tudo isso. Em 1850, Rio Claro era muito internacional, pois a empresa do Vergueiro ia para a Europa para agenciar os imigrantes. Têm jornais da época que traziam uma cotação diária do preço do café. A cidade era grande, sua extensão chegava até os sertões de Araraquara e do outro lado avançava para além de Limeira. Os imigrantes não gostavam desta vida no campo, vieram em condições ruins, sem assistência espiritual, hospitalar. Nesse momento, o imigrante começa, por iniciativa própria, a ocupar o centro da cidade. Em alguns casos, eles eram excluídos da vida social de Rio Claro. Os alemães, por exemplo, se uniram. Casavam-se entre eles, fundaram a escola deles (o Koelle), a igreja deles (Igreja Luterana), e o clube deles (o Ginástico). Os alemães, que estudei com mais profundidade, que vieram ao Brasil sempre desenvolveram estas três instituições. Em Rio Caro, a maioria deles residia em chácaras na recém-criada Vila Alemã. Não houve mescla. Os imigrantes dessa época envolviam, além dos alemães, os suíços e outros povos daquela região. Com a chegada à cidade, após a saída do campo, começaram a desenvolver suas profissões. O dinheiro do café trouxe muita modernidade, mas os imigrantes trouxeram o desenvolvimento cultural. E com isso começam a trabalhar na ferrovia, incluindo também os imigrantes italianos. Desde as bitolas como a parte da operação do trem, além de fundar cervejarias e escolas.

JC – Na política rio-clarense, qual a influência dos imigrantes?

Flávia – Nessa época quem começa a ascender na política foi o Marcello Schmidt, filho de imigrante italiano que chega a ser prefeito em 1904, mas já havia ocupado a função de vereador. É preciso citar também a Sociedade do Bem Comum, que foi criada para construírem a igreja que Rio Claro ainda não tinha. Voltando ao Schmidt, é preciso citar que é iniciada a disputa do poder local com Campos Salles.

JC – Você acha que a história de Rio Claro é repassada para as novas gerações?

Flávia – Não. Eu mesma não sabia. A escola hoje tem o intuito de formar o aluno para o vestibular, e esta história acaba sendo esquecida. Tem livro, por exemplo, sobre a história da cidade que não existe em nenhum outro lugar e está no Gabinete de Leitura. O Arquivo Público tem jornais e outros documentos que relatam esta história.

JC – Qual a importância de ser fazer este resgate histórico?

Flávia – Este resgate é importante para o desenvolvimento econômico e até político da cidade. Analisar aquele período para trazer isso para o futuro, em relação a este espírito empreendedor e de pioneirismo. Rio Claro teve energia elétrica antes de São Paulo, imagina?

JC – O que ocasionou o fim desse período áureo?

Flávia – Entre 1880 e 1882, ocorreram muitas mortes. Têm períodos no livro da Igreja Luterana, por exemplo, somente com registros de óbitos, principalmente por causa da varíola, que dizimou muitas pessoas.

1 COMENTÁRIO

  1. Gostei muito da leitura e das considerações de Flávia. Contudo, acerca da questão “Como era Rio Claro no final do século passado?” gostaria de salientar que a cidade não era grande. A cidade (espaço urbano) era pequena. O município era grande, pois predominava o uso rural destinado à agroexportação – espaços dominados pelos grandes proprietários de terras.

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