Gregório Santos acordou certa manhã e não reconheceu o próprio corpo. Ele havia se transformado em um rinoceronte. Aí ele ficou confuso, e como era bom leitor, se lembrou de que as pessoas se transformavam em rinoceronte na peça “O Rinoceronte”, de Eugène Ionesco. Quando acordou de fato, percebeu que havia retornado à forma humana.

No dia seguinte, teve outro pesadelo. Sonhou e acordou se sentindo não como um ser humano, mas como uma espécie monstruosa de inseto. Reconheceu na hora “A Metamorfose”, de Franz Kafka, que ele leu quando era adolescente.

Não tinha sentido ele se transformar no personagem de Kafka. Após pensar nisso, retornou à forma humana.

Nas três noites seguintes, teve sonhos tranquilos, nenhum pesadelo. Na quarta noite, teve um pesadelo maior. Sonhou que o seu país havia se transformado em uma espécie de hospício. Foi acordando aos poucos e tentando se acalmar, acreditando que era mais um pesadelo, que logo passaria assim que estivesse bem acordado.

Ligou a televisão e viu um homem gritando, xingando e dizendo que não havia pandemia nenhuma, que não havia fome no seu país e que quem mandava nos generais e em todos os ministros era ele e que não admitia ser contrariado.

Os dias foram passando e Gregório, sem emprego, porque havia sido demitido pelo patrão, não sabia mais distinguir a ficção da realidade. Um dia, acordava achando que era um jacaré, no outro que era um monstro verde, que não parava de dizer frases desconexas, que ele mesmo não entendia.

Foi a um psiquiatra para pedir um remédio que fizesse com que ele não tivesse mais aqueles pesadelos e alucinações. O psiquiatra receitou hidroxicloroquina e disse a ele que esse remédio curava todas as doenças, inclusive não deixava a pandemia que estava matando milhares de pessoas tomar conta do seu corpo.

Os pesadelos não passaram. Um dia ele acordou após ter sonhado que havia se transformado em uma caixa gigante de cloroquina. A caixa lhe dava ordens: – Faça continência para mim e diga: – Viva o capitão!!

Os pesadelos só aumentavam. Havia noites em que ele sonhava com os filhos do capitão gargalhando na sua cara e dizendo: – Acabou a liberdade. Agora nós é que mandamos no país.

Gregório foi à estante, pegou o livro com páginas velhas, amareladas, da “Metamorfose”, de Kafka. Ele começou a ler e percebeu que o início havia sido modificado. Estava escrito: Gregório Santos acordou certa manhã transformado em um palhaço horrendo, assustador. E todos ao seu redor: a mulher, filhos, vizinhos, ex-colegas de trabalho também haviam sofrido a mesma metamorfose.

Deu um grito que tinha tudo para ser terrível, mas não saiu. Ele estava mudo, completamente mudo. Na rua, todos os que passavam, sem usar máscara, e com cara de palhaço, tentavam falar, gritar, mas não saía nenhum som.

  • O colaborador é cronista, poeta, poeta, autor teatral e professor de redação. [email protected]

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