Jaime Leitão

Chega uma hora em que as palavras se esvaziam de sentido, não dizem, perdem o seu significado, a sua força, a sua razão de ser.

Na televisão ouvimos em todos os noticiários praticamente só fatos relacionados a um único e tenebroso tema: pandemia. Foi a primeira onda, depois veio a segunda, a terceira, na Europa já se fala em quarta onda.

E vacinas!!  Aqui elas chegam em câmera lenta enquanto Bolsonaro continua em guerra com os governadores. Para ele o confronto parece ser mais importante do que a vida de centenas de milhares de pessoas, que já morreram, fora as que ainda estão esperando sem sucesso uma vaga de UTI na maioria dos estados há dias, sufocadas pelo vírus mortal.

É claro que é necessário abordar essa realidade trágica que estamos vivenciando há um ano, mas o problema é que sentimos que as palavras repetidas dão a dimensão de uma falta de ação, de preparo e de boa vontade de quem deveria agir para acelerar o processo de vacinação, não jogar contra.

Jogar contra a vida significa jogar a favor da morte. E isso é simplesmente escabroso. Essa falta de sintonia entre o executivo federal e os governadores poderia ser exemplificada por um disco riscado, daqueles antigos, com um som bem desafinado, que a todo momento enrosca na velhíssima vitrola, que é um objeto que as novas gerações em sua maioria desconhecem.

Essa velhíssima política, fantasiada de nova política, faz tudo errado, age como se não existisse pandemia, não houvesse milhares de mortes.

Quando vejo o presidente participando de eventos com aglomeração, sem usar máscara, nem digo mais nada, esgotei até a minha capacidade de me indignar, pela repetição desse ramerrame, dessa insistência do governo em agir de forma completamente avessa ao bom senso.

Não, não podemos deixar de nos indignar. Por mais que as palavras percam o seu significado, é necessário buscar na essência de cada uma delas um significado novo, uma força que nos impulsione a protestar pedindo agilidade na compra de vacinas, que o rumo desse trem desgovernado recupere o seu curso, se é que já teve algum curso normal nesses dois anos e pouco de desgoverno.

Não podemos perder a voz por menos que ela seja ouvida. Não podemos perder a nossa capacidade de pensar, de analisar, de entender a dimensão dessa tragédia toda e por que não foi evitada bem antes de atingir esse ponto cego, esse ponto absurdo, que parece que não vai ter retorno. Precisa ter. Enquanto escrevo aqui, milhares de brasileiros esperam por um respirador, um leito de UTI, sem poder falar, quase sem poder respirar. Isso é trágico demais.  Não tem nada de normal, é uma aberração.

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