Mestre da Congada relembra Figueira de São Benedito

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Adriel Arvolea

Ariovaldo relembra infância próxima à árvore
Ariovaldo relembra infância próxima à árvore

 

Uma data histórica: 23 de fevereiro de 2014. Os ponteiros do relógio marcavam 17 horas. Um domingo chuvoso castigaria a centenária Figueira de São Benedito, em Rio Claro (SP). O exemplar não resistiu à força dos ventos e parte do tronco cedeu, caindo na via pública, mas sem deixar feridos. Símbolo da libertação e de manifestações culturais, a árvore é considerada um marco para a comunidade negra. O seu crescimento foi acompanhado pelos encontros, festejos e comemorações de irmandades, negros sambistas, macumbeiros e de tantas outras doutrinas. Tradições que se mantiveram ao pé da figueira ao longo de mais um século.

Uns dizem que a árvore tem entre 100 e 120 anos. Mas José Ariovaldo Pereira Bueno é enfático ao afirmar essa idade. “A Figueira tem muito mais que 150 anos. Em 1946, pertencia à Irmandade de São Benedito e era tudo mato naquela área, um areão, e a árvore já existia. Ali acontecia o samba da Umbigada, o Tambu, uma dança folclórica. Ao redor, havia uns espaços fechados, tipo cercados, onde aconteciam os sambas, o Tambu e o Samba-lenço. Então, pequenininho, já entrava no meio das danças, mas fugia quando a polícia chegava”, relembra.

Líder do Grupo Folclórico Congada e Tambu de São Benedito Rio-clarense, seu Ari, como é conhecido, traz à memória recordações embaixo da sombra da figueira vividas, também, por seus familiares. “Aquela sombra, acolhedora e hospitaleira, era onde meus tataravós faziam oferendas para os orixás. Os negros e escravos faziam suas devoções, cultos e orações junto à árvore. Ali era feito o culto dos negros”, conta. O exemplar, também, é memória viva do crescimento de Rio Claro, pois serviu de pouso para os tropeiros que cortavam a região. “Muitos tropeiros, com suas tropas e boiadas, foram recebidos pela figueira. Além dos cultos dos negros, a árvore era ponto de parada na rota das comitivas”, reforça o líder da Congada.

Parte do tronco da figueira permanece em pé, o que abre discussões quanto ao futuro da árvore: mantê-la como está ou cortá-la com replantio. Independente do destino que se dê ao exemplar, seu Ari acredita na força divina. “Se o vento derrubou a figueira, foi porque Deus quis assim. E Ele, nosso Pai, vai dar condições para que ela se recupere. É algo natural, uma lembrança muito linda que não está acabada. Se foi plantada com carinho, vai se recuperar com o mesmo carinho, se Deus quiser”, diz, confiante.

A intenção do município é preservar o legado histórico-cultural da árvore centenária. Da parte que cedeu, a madeira foi cortada e será conservada, segundo informa a Secretaria de Cultura. “Demos início à preparação dos troncos para que recebam o tratamento químico necessário para sua preservação”, esclarece. Pretende-se, a partir disso, promover concurso público para a produção de obras de arte com as peças estabilizadas.

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