“A questão engloba o respeito ao nosso corpo, o direito e o reconhecimento no mercado de trabalho, o direito de escolhermos nossas profissões e de ir e vir com segurança”, comenta Josiane. Em sua opinião, este é o dia em que a comunidade negra eleva sua voz e se faz presente pelo reconhecimento da sua cultura, da sua religiosidade e da potência do seu matriarcado. Josiane Cristina Martins da Silva

Numa sociedade que, ainda, faz diferença pela cor, comete crimes por racismo e estabelece uma hierarquia entre as etnias, hoje é um momento para refletir. O 20 de novembro marca o Dia da Consciência Negra, alusiva à morte de Zumbi, líder do Quilombo dos Palmares. A data não é apenas um feriado no calendário de alguns municípios, mas reflete a luta pelos direitos dos negros e a luta diária contra a opressão no Brasil.

O ator, cantor e artista visual Renato Caetano, 31 anos, avalia que não deveria ser uma data a ser lembrada apenas como um feriado de ‘respeito e leveza’, mas, sim, como lembrança de força e capacidade de re-existência humana. E permanecerá necessário até se atingir um nível de conscientização, respeito e igualdade para todos.

“Tive uma professora negra de História, no ensino fundamental, mas parece que aprendi sobre escravidão como uma fábula, algo que aconteceu lá atrás e não tem nada a ver com os fatos de hoje. Essa data vem para lembrar que um dia a nossa utopia existirá de fato como utopós (nossos lugares a serem conquistados) e não vai mais precisar deste 20 de novembro. Porém, enquanto tivermos inúmeros João Pedro, Ágatha Felix e George Floyd morrendo, precisaremos falar sobre isso”, destaca Caetano.

Para uma mudança de cenário e comportamento social, o ouvir, falar e respeitar devem caminhar juntos, para que se alcance a liberdade de opiniões e o diálogo na coletividade. Mesmo que as situações indiquem o contrário, é preciso manter a esperança.

“Estamos num momento em que a questão não é ponto de vista/opinião mais. É entender que a visão de mundo de alguns pode limitar e machucar fatalmente a existência de outros. Isso para mim perde o valor e o respeito enquanto opinião, pois se torna uma questão de sistema, de sociedade e de um racismo estrutural totalmente enraizado. Precisamos, urgentemente, continuar a falar sobre isso. E de todas as maneiras possíveis não perder a esperança. Entender que a esperança e o vislumbre já são elementos de mudança. Uma hora isso vai mudar”, reforça.

Eric Arthur Romualdo, 37 anos, é ex–atleta profissional de Basquete e engenheiro civil. Envolvido no esporte, na música e no samba, fundou o Instituto Tatu Bola, que trabalha para transformar a vida de crianças, adolescentes e jovens. Ele acredita que toda mudança só será possível por meio das oportunidades.

“A cultura é a identidade do povo. Por meio dela, sabemos de onde viemos, o que fizemos e devemos fazer, com nossos erros e certos. Nesta data, vários sentimentos nos colocam para refletir, como a tristeza num momento de sofrimento e de alegria, pelo orgulho e vitórias ao longo do tempo. Mas, ainda, temos uma batalha muito longa para enfrentar”, pondera.

Eric Tatu, como é conhecido, destaca que é preciso falar de esporte para ressaltar o respeito e valores de cada um. “É preciso valorizar o fator de igualdade por meio da arte, cultura e esporte. Esse é o nosso papel no dia a dia”, conclui.

Realidade

A luta do negro é diária na sociedade, principalmente a da mulher. É na busca por emprego, educação e oportunidades por uma vida mais justa e igualitária

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