Jaime Leitão

Hoje, para respirarmos um ar mais leve, em momento tão conturbado e pesado, resolvi fazer uma pesquisa sobre a presença da música na vida de alguns artistas plásticos.

Comecei por Picasso. Eu fico pensando: é possível alguém não gostar de música? Ainda mais um artista como Picasso? Em setembro do ano passado, em plena pandemia, foi inaugurada na Filarmônica de Paris a exposição: “As músicas de Picasso”.

A curadora da exposição, Cécile Godefroy, fez extensa pesquisa para descobrir a ligação do extraordinário pintor com a música, a partir de uma afirmação que ele teria feito nos anos 1960, em uma entrevista, dizendo: “Eu não gosto de música”.

A pesquisadora encontrou telas e esculturas em que aprecem flautistas e outros músicos criadas por Picasso. Ela viu nessa descoberta um paradoxo: – como alguém que não gosta de música vai se interessar por instrumentistas?
Foi mais a fundo e descobriu que quando era criança ele viajava com o pai pelo interior da Espanha, pelos bairros ciganos de Málaga e que isso o marcou muito, fazendo com que Picasso ficasse bastante ligado às músicas ciganas, populares, como o flamenco. E a curadora também percebeu muita musicalidade e movimento em inúmeras telas do artista.

Uma das telas mais expressivas do cubismo é justamente “Os três músicos”, pintada em 1921 por Picasso, há exatamente cem anos.

Um outro grande pintor que teve parte de sua obra dedicada à música exposta na Filarmônica de Paris foi Marc Chagall, que nasceu na Bielorrússia, mas viveu grande parte da sua vida em Paris.

Chagall mergulhou fundo na música e inclusive pintou enormes painéis para óperas apresentadas na Filarmônica. Gostava de pintar ouvindo música, ao contrário de Picasso. Em Chagall encontramos musicalidade na maioria das suas telas; em Picasso a música também está presente, mas de maneira bem mais discreta.

A música aparece de maneira marcante na pintura do pintor Cândido Portinari. As bandas de música, de Brodosqui, sua cidade natal, e da vizinha Batatais, o inspiraram a criar várias telas retratando instrumentistas do interior. Também o frevo pernambucano e o Carnaval.

A música e as danças, de maneira efusiva, são marcantes na obra de outro grande pintor brasileiro, Emiliano Di Cavalcanti, que retratou o Carnaval com alegria, movimento, sem deixar de lado a preocupação com uma realidade social, de injustiça, que ele conhecia bem.

Este tema, que é a relação próxima entre a música e a pintura, me estimula a pesquisar mais para futuros artigos. Essas duas linguagens se completam e mantêm entre si uma relação mágica, harmônica, que precisa ser cada vez mais buscada e compreendida.

Boa Páscoa. Sem deixar de lado a prudência para evitar que a pandemia continue avançando.

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