O estudante de Educação Física, Ricardo Guilherme Tofanelli, 24 anos, se assumiu trans (nasceu biologicamente mulher e transicionou para o gênero masculino) em 2016 e começou o tratamento hormonal naquele mesmo ano. Numa época em que ainda não havia muitas informações e discussões sobre transexualidade, teve que superar desafios e momentos difíceis.

Mesmo tendo se assumido lésbica aos 15 anos, entendia que não tinha atração sexual ou emocional por homens, mas mesmo assim ainda se sentia diferente. Ao contrário das amigas, tinha vergonha do próprio corpo, principalmente em relação aos seios, e ficava feliz ao ser confundida com homens. Mas foi a partir de uma série televisiva que tudo começou a mudar e ficar mais compreensível.

“Comecei a assistir à série ‘The L Word’, que mudou o meu mundo. Em uma das temporadas, apareceu uma personagem que se parecia muito comigo: na forma de se vestir, falar e sentir. No desenvolver da trama, essa personagem se descobre um homem trans, assim como eu sou. Aquilo abriu meus olhos para o mundo e foi, a partir daquele momento, que eu me entendi trans. A aceitação e me assumir vieram anos depois dessa série”, comenta.

Ricardo diz que a maior dificuldade que enfrentou no processo inicial, assim como para a maioria, foi contar para a família. Depois vieram os desafios nos relacionamentos sexuais e profissionais, como encontrar emprego. Por fim, a resistência no meio esportivo e em que gênero competir.

“Pensar em não ser aceito, mais amado ou acolhido pela minha família era algo aterrorizante. Passei por muitos momentos difíceis. Tive depressão e até pensei em não viver mais. Foi aí que o apoio e aceitação da minha família, meus amigos, meu esporte (o Cheerleading), junto com o tratamento psicológico, salvaram a minha vida”, relembra.

“Hoje, sinto-me 100% do homem que eu realmente sou. Não importa o que digam, eu sou muito homem, sim! Só preciso da minha última cirurgia para ficar realizado em todos os quesitos do meu corpo”, diz Ricardo Guilherme Tofanelli

Tanto que sua mãe fez até empréstimo no banco para que realizasse a cirurgia de retirada dos seios. Depois do procedimento, a sua vida ‘decolou’. “A evolução física para mim foi a mais rápida. Fico muito feliz ao me olhar no espelho hoje, embora ainda esteja juntando economias para fazer a última cirurgia de redesignação sexual. Eu sou só alegria e grato por todos”, comenta o jovem.

Falando em superação, Ricardo trabalha, atualmente, em dois lugares que o acolheram e o reconhecem como profissional.

Mulher trans critica a falta de espaço no mercado de trabalho

Natália Martins, mais conhecida como Nat, 47 anos, se assumiu mulher trans aos 18. Vivenciou tempos ruins, superou preconceitos e hoje comemora a importância da visibilidade do tema.

Na sua opinião, a data reflete a luta contra a discriminação e a favor da dignidade e cidadania. “É uma vitória para todas nós. Uma busca por igualdade e respeito. É uma batalha que não é de hoje e que reflete o ideal daquelas que já se foram e não puderam vivenciar isso”, comenta.

No entanto, para ela há ainda muito o que ser conquistado. “O nosso desafio é diário. Hoje em dia, o maior obstáculo é a colocação no mercado de trabalho, ser reconhecida como ser humano como qualquer outro na sociedade. É poder acordar cedo, ir para o trabalho e ganhar o próprio sustento, sem apelar para outros meios”, conclui Nat.

Natália é comerciante e destaca a luta diária das mulheres trans na sociedade (arquivo pessoal)