Técnico da Seleção Brasileira de Basquete Masculino fala sobre a modalidade no país

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Matheus Pezzotti

O repórter Biduzinho, da Rádio Excelsior Jovem Pan Sat, 1.410 kHz, também participou da entrevista com Rubén Magnano
O repórter Biduzinho, da Rádio Excelsior Jovem Pan Sat, 1.410 kHz, também participou da entrevista com Rubén Magnano

Nesta semana, o técnico da Seleção Brasileira de Basquete Masculino, Rubén Magnano, esteve em Rio Claro para acompanhar os treinos da seleção Sub-16, que se prepara para a disputa da Copa América.

Natural de Villa María, em Córdoba, na Argentina, o treinador de 60 anos tem na genética, já que seus pais jogaram basquete, o gosto pela modalidade. Estudou educação física e iniciou seu trabalho com um projeto em uma escola religiosa para Mini-Basquete (para crianças com menos de 12 anos) em Córdoba, há cerca de 30 anos.

No clube Atenas, foi assistente técnico, assim como na seleção argentina, por oito anos até 2000, quando assumiu o comando do selecionado de seu país até 2004, quando conquistou o ouro olímpico. Depois foi para a Itália, retornou para a Argentina e, em 2010, aceitou o desafio de ser o técnico da seleção brasileira. A vontade de ser apenas professor de basquete culminou em uma referência mundial na modalidade, com a conquista de inúmeros títulos.

Jornal Cidade – Por que aceitou o desafio de treinar a seleção brasileira?

Rubén Magnano – O treinador que não está disposto a pegar desafios acho que tem que deixar de ser treinador. A decisão foi porque a CBB não me falou em números e colocações. Falou de fazer um trabalho, colaborar, achei muito bacana o que estavam querendo de mim e falei que sim, porque o desafio é muito importante e grande.

JC – Encontrava algum preconceito? Ainda encontra?

RM – Vai ter aceitação e não vai ter de muitas pessoas. Uma coisa é ser estrangeiro, outra é ser argentino. Paga o dobro. Eu acredito muito no que eu faço. Não perco tempo me dedicando a saber o que pensam as pessoas de mim. Trato de ter um conceito de mim pelas coisas que faço como pessoa e treinador.

JC – O que mudou na estrutura do basquete brasileiro neste período?

RM – Minha participação não é muito grande na estrutura. Para mim é muito importante o que fiz na seleção Adulta, porque ela é um verdadeiro espelho para esta estrutura. Quando cheguei, o Brasil era número 16 no mundo, não se classificava nas Olimpíadas há 16 anos. Hoje, está em quinto nas Olimpíadas, voltou a disputar os Jogos Olímpicos e está em sexto no mundo. Depois de percorrer todo o Brasil por um ano, entendi o que estava acontecendo. Não temos tanta quantidade de garotos jogando basquete. Não temos tantos clubes e isso é um problema. A qualidade você encontra na quantidade. A CBB está montando curso para treinadores para capacitá-los. Existe a Liga Nacional que está crescendo e uma Liga de Desenvolvimento muito interessante, mas ainda precisamos mais. Acredito muito no trabalho dos clubes. Venho de um país em que os clubes têm uma importância muito grande. Tem que ter projeto de esporte para incentivar e recuperar os clubes. Outro caminho é a escola. O Brasil não tem Mini-Basquete sistemático. Os jovens não têm esse incentivo semanal para jogar contra outro clube, outra escola, esta é a verdadeira motivação. Com isso, você pode encontrar uma quantidade em potencial de jogadores, árbitros e dirigentes.

JC – Sobre treinadores brasileiros, estamos parados no tempo ou há pensamentos interessantes?

RM – Tem campeão do Mundo de Clubes, Pan-Americano, Liga Sul-Americana, alguma coisa tem que ter. Estive na Espanha para ver o Final Four da Euro Liga e participei como aprendiz de uma clínica para treinadores e vi três treinadores brasileiros. Há pessoas que estão correndo atrás para melhorar. Se você não está preparado para qualquer profissão, você não vai conseguir nada, sua carreira vai acabar.

JC – Por ser sede das Olimpíadas, algumas modalidades já estão garantidas. Isso acomodou o esporte olímpico?

RM – Tenho que falar de basquete. Falar de outra modalidade seria desrespeitoso. Temos um problema maior. Nós não temos a vaga. Os jogadores sabem disso e o pior que pode acontecer é o basquete pensar que jogar em seu país terá garantia de alguma coisa. Pode ser um fator bumerangue, de se voltar contra. Tem que estar muito atento e ser inteligente em canalizar isso. Passar uma mensagem positiva do fato de jogar em casa, porque muitas vezes acontece de você se acomodar e o basquete é visto com muito receio e tem que ficar de olho com isso.

JC – Como o senhor vê a diminuição do número de adeptos, perdendo espaço para o vôlei, deixando de ser o segundo maior esporte no país?

RM – Eu acho que tudo tem a ver com tudo. É um agente multiplicador. O basquete perdeu um lugar muito importante. Com maior número de competidores, se consome muito mais basquete. Nossa seleção Adulta é um espelho para que se consuma basquete. Acho interessante o que fiz até agora, porque tive situações de encontrar pessoas na rua que me diziam que voltaram a assistir ao basquete. Pode ganhar ou perder, pelo menos se vê um jogo de basquete com uma identidade e respeito. E isso para mim é um prêmio muito grande.

O áudio da entrevista na íntegra está disponível no player abaixo. Clique para ouvir.

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