FÁBIO ZANINI – SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Com a óbvia exceção do hors-concours Nelson Mandela, foi o arcebispo Desmond Tutu a mais conhecida figura da luta da África do Sul contra o apartheid. Sua contribuição para a transição do regime segregacionista branco para uma democracia racial foi imensa, apenas um degrau abaixo da do ex-presidente, morto em 2013.

Tutu morreu na madrugada deste domingo (26), aos 90 anos, segundo a Presidência sul-africana. O arcebispo recebeu diagnóstico de câncer de próstata no final dos anos 1990 e, nos últimos anos, foi hospitalizado em várias ocasiões para tratar infecções associadas ao tratamento de câncer.

“No final das contas, aos 90 anos, ele morreu pacificamente no Oasis Frail Care Centre na Cidade do Cabo esta manhã”, disse Ramphela Mamphele, presidente interina do Archbishop Desmond Tutu Intellectual Property Trust e coordenadora do escritório do arcebispo, em uma declaração em nome da família Tutu. Não foram fornecidos detalhes sobre a causa da morte.

Ao longo de décadas de militância, Tutu firmou-se como a consciência moral sul-africana. Ele não tinha, afinal, os laços pessoais e as responsabilidades políticas que obrigavam Mandela a moderar seus comentários sobre os erros do governo pós-apartheid.

Eterno outsider, frasista de primeira e sem nenhuma papa na língua, Tutu terminou a vida como um pop star, com seu sorriso inconfundível e gritinhos de alegria em ocasiões festivas.

Não que não fosse duro quando necessário. Nas décadas de 1970 e 1980, como secretário-geral do Conselho Sul-Africano de Igrejas, um guarda-chuva de denominações cristãs no país, era o rosto da resistência ao regime branco.

Mandela, no período cumprindo pena e banido pelo governo, era apenas uma foto em preto e branco, e o partido que liderava, o Congresso Nacional Africano, dividia-se entre o exílio e uma guerrilha mambembe que não causava cócegas no establishment.

“Até ser libertado, em 1990, Mandela era visto sobretudo como um combatente, não como um pacifista. Tutu, por sua vez, era quem dava a moldura moral para a resistência contra o apartheid”, afirma William Gumede, professor da Escola de Governo da Universidade de Witwatersrand, em Joanesburgo, e autor de livros sobre política e história sul-africana.

A atuação de Tutu em favelas, a denúncia de abusos por parte das forças de segurança e a defesa do fim pacífico do apartheid, pela via das sanções internacionais, lhe valeram o Nobel da Paz de 1984.

Seu discurso conciliador às vezes causava repulsa entre jovens lideranças negras, que sofriam na pele a perseguição do regime e defendiam a radicalização. “Os brancos sul-africanos são seres humanos comuns, que estão assustados. Quem não estaria, sendo superado em uma proporção de 5 para 1?”, disse ele, certa vez.

Ao mesmo tempo, definia-se como um homem de paz, mas não um pacifista irredutível. Dizia entender os motivos para a agressividade dos jovens e aceitava que uma resistência à Gandhi tinha seus limites. “Reconciliação não é dizer paz, paz, paz, onde não existe paz. Não se pode reconciliar em quem pisa em nós. É preciso nos levantarmos primeiro”, afirmou.

Ele nasceu em 1931 em Klerksdorp, no centro do país. Foi educado em uma missão religiosa, única oportunidade de ascensão social para negros pobres na época. Seu desejo era seguir a carreira médica, mas a falta de recursos para pagar os estudos o empurrou para a opção economicamente mais viável no momento, a Igreja Anglicana, onde se sagrou padre em 1961. Lentamente, ao subir na hierarquia da igreja, tornou-se gradualmente reconhecido como uma das principais vozes do clero sul-africano.

O Nobel não o blindou da repressão policial, e, mesmo depois de reconhecido internacionalmente, continuou a ser detido, embora por períodos curtos.

De perfil esquerdista no conservador ambiente das igrejas sul-africanas, nunca teve pruridos em defender o engajamento social de líderes religiosos. Via, por exemplo, pontos de contato entre o trabalho que fazia e a Teologia de Libertação, então no auge do prestígio na América Latina.

Em uma entrevista ao jornal Folha de S.Paulo em 1985, disse ser grande admirador de dom Hélder Câmara, o “bispo vermelho” de Olinda, e das Comunidades Eclesiais de Base brasileiras.

Na primeira metade dos anos 1990, com o apartheid finalmente se desmantelando, Tutu fez campanha para que a África do Sul permanecesse unida e resistisse às pressões pela divisão em dois países, um para os negros, outro para os brancos. Atribui-se a ele a criação do termo “nação arco-íris”, rapidamente adotado pelo novo governo, como slogan para uma democracia multirracial.

Em 1995, com Mandela na Presidência da África do Sul, Tutu foi a escolha óbvia para chefiar a Comissão de Verdade e Reconciliação. Nunca algo semelhante havia sido tentado em lugar nenhum do mundo, e a ideia parecia heterodoxa.

Pessoas eram estimuladas a admitir erros e confessar crimes, inclusive assassinatos, em sessões públicas, mas sem que fossem punidas por isso. O importante era a verdade vir à tona, para que o país pudesse seguir adiante.

“Era um arranjo imperfeito, e ele sabia disso, mas dizia: se não é perfeito, vamos tentar fazer o melhor possível dessa situação”, afirma o professor Gumede, que foi parte da equipe que fez a redação final do relatório da Comissão e trabalhou diretamente com Tutu.

Atento a simbolismos, promoveu diversas sessões da Comissão na igreja Regina Mundi, no bairro de Soweto, que havia servido de abrigo para jovens em fuga da polícia durante os anos do apartheid. Lá, em meio a vidros ainda com as marcas de tiros e uma estátua negra de Maria, incontáveis depoimentos foram tomados. Como definiu Tutu anos mais tarde, “uma ferida infectada foi aberta e limpa, e bálsamo foi jogado nela”.

Crucialmente, resistiu às pressões do governo e incluiu em seu trabalho também atrocidades cometidas por movimentos negros. Não poupou nem um ícone como Winnie Mandela, que nos anos 1980 e 1990 liderou gangues de adolescentes que justiçavam negros “infiltrados” pelo governo.

Àquela altura, estava sedimentado o distanciamento entre Tutu e a nova liderança do país. Tornou-se crítico cada vez mais impaciente da corrupção e da ineficiência do governo.

No final da vida, manteve a rotina de não fugir de polêmicas e de advogar por causas progressistas. Defendeu enfaticamente, por exemplo, a ordenação de padres gays pela Igreja Anglicana.

Em 2010, aceitou ser parte de um experimento nos EUA, e teve seu DNA mapeado num projeto para identificar semelhanças genéticas entre as raças. Também foi um entusiasta da realização da Copa do Mundo na África do Sul, e ficaram famosas suas aparições empolgadas com a camisa amarela dos Bafana Bafana, a seleção local.

Anunciou sua aposentadoria em 2010, mas ainda publicou um livro infantil com histórias da Bíblia e continuou escrevendo artigos em que defendia sua “nação arco-íris” e incomodava o governo. Naquele ano, numa entrevista ao jornal The New York Times, admitiu a dificuldade em se retirar da vida pública. “Eu gostaria de poder calar a boca. Mas não consigo, e não vou.”

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