Jaime Leitão

Um fato é inegável: os humoristas, chargistas e produtores de memes não têm do que se queixar em relação ao presidente Jair Bolsonaro. Ele produz diariamente farto material para que os humoristas, em todas as mídias, deitem e rolem.

No Twitter e outras redes sociais, na semana passada, pipocaram memes e piadas sobre a compra pelo governo, durante o ano de 2020, de R$ 15 milhões em leite condensado. O governo justificou afirmando que o leite condensado era para atender pedido do Ministério da Defesa para garantir uma alimentação saudável para os recrutas. Permaneceu a piada e o questionamento até que ponto faz sentido o governo gastar tanto com leite condensado, bebidas e outros produtos não essenciais em plena crise da pandemia, com grande parte da população passando necessidade.

Esse valor, segundo reportagem inserida no site Metrópoles e reproduzida no jornal “O Estado de S. Paulo”, é cinco vezes superior ao que foi destinado no ano passado ao INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) para fazer o rastreamento por satélite de toda a Amazônia.

Será que o leite condensado em quantidade tão expressiva é mais importante do que investimento em satélite para monitorar a Amazônia, evitando o aumento da devastação que atingiu no ano passado índice assustador? Esse fato comprova mais uma vez que Bolsonaro não tem grande apreço pela ciência. Com um ministro do Meio Ambiente que propôs passar a boiada na Amazônia, não dá para acreditar que esse apreço exista de fato.

Só de ver tantos memes sobre leite condensado fico um tanto enjoado. Arrepia até a alma.

Na época da campanha, em 2018, Bolsonaro já propagava a sua predileção por um café da manhã que tivesse diariamente pão francês recheado de leite condensado. Pelo que tudo indica, estendeu esse hábito aos recrutas. Sem se esquecer também dos chicletes que foram comprados por R$ 2,2 milhões.

No total, o governo gastou em 2020 R$ 1,8 bilhão em alimentação. Além do leite condensado chamaram atenção gastos de R$ 32,5 milhões com pizza e refrigerante.

Em um ano de profunda crise, devido à pandemia de Covid-19 e do desemprego em taxas altíssimas, soam como um escárnio gastos tão significativos com leite condensado, pizza e refrigerante.

Está faltando dinheiro? Está. Para a cultura, para a ciência, mas não estão faltando recursos para comprar muito leite condensado.

Na realidade, o que prevalece não é o humor gerado pelas atitudes do presidente, mas o terror da falta de oxigênio no Amazonas, que provocou a morte de vários pacientes, que ficaram dias em corredores, sentados, com falta de ar, esperando por um cilindro que para muitos não chegou. E o presidente insiste que não é responsabilidade dele fornecer oxigênio para os hospitais.

A sua omissão ao longo da pandemia, o negacionismo, a sua insistência em não usar máscara e causar aglomerações constroem um quadro tenebroso de um país que vive uma crise sanitária e humana de proporções gigantescas e que exibe um presidente conversando com os seus seguidores passeando de moto, sem máscara, como se tudo estivesse correndo bem, sem crise e sem mais de 200.000 mortes. Esse comportamento não tem justificativa que possa amparar a falta de apreço pela vida de quem deveria cuidar dela com o máximo zelo.

(O colaborador é cronista, poeta, autor teatral e professor de redação. [email protected])

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