Muito abalados e desesperados. Foi desta forma que Luis Claudio Muniz Picado, 39 anos, e Tamires de Oliveira, 30 anos, procuraram a reportagem do Jornal Cidade para relatar o drama e a dor que vivenciam desde o dia 11 de agosto. Eles são pais de Heloísa Raphaelly de Oliveira Muniz, seis anos, que morreu na quinta-feira (18), exatamente uma semana após bater o joelho em uma porta.

“Minha filha estava brincando com o irmão de oito anos e acabou batendo o joelho em uma porta. Algo que parecia normal, pois crianças sempre caem, batem em algum lugar, se tornou um pesadelo”, relata o pai Luis Claudio, que conta ainda que na hora olhou o joelho da filha e passou uma pomada para dor no dia 11 de agosto.

No dia seguinte Heloisa reclamou ao pai que estava com dor no local da batida e por isso foi levada até o Pronto Atendimento do bairro Cervezão: “Quando médico a chamou, ele apenas olhou e, que fique bem claro: olhou. Disse que estava apenas inflamado, que era uma lesão e receitou um remédio e uma pomada, não sendo feito nenhum exame”, relembra Luis Claudio.

Foto mostra o joelho direito que Heloisa bateu na porta durante brincadeira com o irmão

Já no domingo, Dia dos Pais, a menina relatou piora nas dores e o pai novamente a levou até o Cervezão onde, segundo ele, desta vez, fizeram um Raio-X pelo qual nenhuma fratura foi constatada. A decisão do médico de plantão foi que imobilizassem a perna da criança: “Como não havia ortopedista no Cervezão, disseram que iriam levar minha filha para a Unidade de Urgência e Emergência Nossa Senhora de Lourdes, o antigo PSMI, para que isso fosse feito lá. Ficamos esperando por quatro horas e minha filha com intensas dores, até que isso acontecesse. Já na nova unidade imobilizaram, deram um remédio para dor e nos mandaram para casa”.

Na segunda (15) e terça (16), Heloísa passou o dia deitada, de repouso, por conta de estar com a perna imobilizada. Apesar disso ela seguia com as dores e os pais ministrando os medicamentos dados, entre eles Dipirona e Allivium. Já na quarta-feira (17), a menina amanheceu com manchas pelo corpo inteiro, sendo que as dores seguiam, fatos que mais uma vez fizeram os pais pedirem ajuda no Pronto Atendimento do Cervezão: “Quando chegou a vez da minha filha eu entrei junto, ela disse que as dores estavam cada vez mais fortes e eu alertei para as inúmeras manchas no corpo dela. O médico simplesmente disse que era alergia ao medicamento e trocou. Ressalto que em nenhum momento foi pedido um exame de sangue ou pegou que fosse um estetoscópio para avaliar com mais precisão a minha filha”, diz Luis Claudio.

“O certo não são os pais enterrarem os filhos e sim os filhos enterraremos pais. Nossa dor é imensurável. Heloisa era a nossa doce menina”

Luis Claudio e Tamires

O dia seguinte

Na quinta-feira (18), no final da tarde, o pai entrou no quarto da filha e notou que ela estava com sangue na boca, fato que fez com que ele a levasse imediatamente de volta ao Pronto Atendimento do Cervezão: “Ela foi levada para a emergência e os profissionais me disseram para eu e a mãe ficarmos calmos que ela estava melhorando. Pouco tempo depois vieram informar que Heloisa precisaria ser intubada, fato que nos pegou de surpresa e não foi autorizado por nós, porém mesmo assim eles a intubaram e nos tiraram da sala. Neste momento confesso que ela estava bem e inclusive tinha dito ‘oi’ para o tio dela, que havia entrado comigo. Pouco tempo depois já vieram nos avisar do óbito e que não sabiam da causa da morte. Afirmo também que o legista me disse depois que o óbito foi por pneumonia, mas minha filha não apresentava nenhum sintoma de falta de ar, tosse, nada parecido com isso”, relembra o pai.

“Foi uma omissão o que fizeram com a minha filha. Estamos vindo a público, mesmo destruídos por dentro, para que se apure o que aconteceu e as responsabilidades, porque a nós nos restaram a dor e o luto. Não tiveram o mínimo de cuidado, de avaliação criteriosa, de compaixão. No prazo de uma semana minha filha foi quatro vezes até o Cervezão e o quadro só se agravando. Olhavam, davam remédio e mandavam para casa. Na quarta o mínimo era ter investigado as manchas no corpo dela, feito um exame de sangue. Isso sem falar nos outros dias. Falo isso para alertar outros pais sobre isso. Para que não venham a passar o que a minha família está passando”, lamenta a mãe Tamires de Oliveira.

Um inquérito foi aberto e o pai esteve ontem na Delegacia de Defesa da Mulher prestando depoimento: “Não dá para simplesmente lamentar. Minha filha sempre foi saudável, nunca apresentou nenhum problema de saúde. Era uma criança alegre, ativa, amorosa e de repente tudo isso acabou. Minha filha bateu o joelho e uma semana depois saiu morta de dentro do Pronto Atendimento após várias consultas e achismos. Para nós foi negligência”.

O que diz a FMS

A Fundação Municipal de Saúde esclarece que não houve negligência no atendimento prestado à criança e que todos os procedimentos foram realizados de acordo com protocolos clínicos. Equipe técnica da Fundação de Saúde realizou análise dos prontuários médicos e não constatou nenhuma irregularidade nos atendimentos. A Fundação de Saúde informa que disponibilizará prontamente todos os prontuários que a família venha a solicitar oficialmente. A equipe da Fundação de Saúde se solidariza e expressa seus sentimentos à família.

Fim de um sonho

O sonho de Heloisa era andar de avião e eles estavam com uma viagem marcada para o ano que vem quando iriam realizar o desejo da menina. Diante da morte precoce, os pais tinham decidido por cremarem o corpo e levarem para Florianópolis, realizando assim o desejo da filha, porém, diante da investigação e da dor tiveram que mudar os planos: “Já fizeram alguns exames no corpo, mas isso demora um pouco e isso não está nos fazendo bem, saber que nossa filha está em uma geladeira depois do velório. Por isso, em conversa com a mãe da Heloisa, vamos optar pelo sepultamento no São João Batista e estamos cuidando dos trâmites caso, ao longo da investigação, precise realizar mais algum exame no corpo, o que impossibilitaria com a cremação. Estamos dando suporte para o nosso outro filho de oito anos e em busca de respostas e forças, porque apoio mesmo não recebemos da administração”, finaliza Luis Claudio.

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