Há alguns dias os olhares do mundo se voltaram para a operação militar de grande escala ordenada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que capturou o líder venezuelano Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores. Encontrados em Caracas foram levados para os Estados Unidos, onde enfrentarão acusações federais. Trump descreveu a ação como um “ataque bem-sucedido” e afirmou que colocaria Washington no comando de um processo de transição em Caracas. Os fatos desencadearam várias reações ao redor do mundo e em nossa região não foi diferente. Abrigo de inúmeros venezuelanos que deixaram o país nos últimos anos, o Jornal Cidade conversou com dois deles que abriram o coração e fizeram uma reflexão sobre o que viveram antes de tomarem a decisão de vir para o Brasil.
Nascido em Caracas, o pianista internacional Jose Jesus Ortiz tomou em 2016 uma decisão que segundo ele não dava mais para ser adiada: deixar a Venezuela e tudo o que tinha para encontrar a paz em outro lugar: “Imagine viver em um lugar onde você tem dinheiro, mas não consegue comprar um remédio. As pessoas em filas por um, dois dias, para conseguir um pão, para conseguir comprar um frango para comer. Você não tem condições de abrir um negócio, porque não há segurança. Se você tem um comércio, ele pode ser expropriado, tomado pelo governo. Não havia futuro na Venezuela. Por isso, milhões de pessoas foram embora em busca de outro país, de outro futuro, para conseguir comer, se integrar e ajudar a economia do país que as acolheu”.
Ortiz tem viva na memória muitas cenas chocantes como ele as chama: “Entre as mais tristes que presenciei não apenas uma vez mas várias foram famílias inteiras esperando restaurantes fechar para abrir o saco de lixo e buscar restos de comida. Um dia cansado de ver tamanha perseguição ao nosso povo, cansado de passar fome, fiz uma consulta com Deus e pedi um direcionamento. Abri um livro de viagens aleatoriamente e na página estava escrito Campinas. Não conhecia, vi que era no Brasil e ali entendi que Deus estava me dando o sinal que pedi. Mesmo sem falar português fiz uma mala e deixei minha casa para trás e tudo o que havia dentro dela”, recorda.
Depois de Campinas, Ortiz chegou a morar em Rio Claro e hoje reside em Piracicaba. Sobre a ação dos EUA, o pianista fala em liberdade: “Foram incontáveis os telefonemas que eu recebi de pessoas ao redor do mundo comemorando. Maduro é um ser genocida, que não tem limites. Narcotraficante e ditador. Quem falasse contra ele ia preso na hora. Madurio não foi sequestrado, Maduro foi extraído da Venezuela porque ele não é presidente legítimo do meu país. Começou um processo de transição e sem dúvida, eu e milhões de venezuelanos estamos otimistas”, completa.
Aos 38 anos, Lourdes Beatris Corredor compartilha da mesma opinião de Ortiz. Em 2017 ela deixou a Venezuela e veio morar em Rio Claro: “Ou ficávamos e morríamos de fome ou íamos embora”, afirma. Junto com o marido e dois filhos escolheu a segunda opção após inúmeros episódios de dor e sofrimento.
Ela afirma que por muitas vezes enfrentou filas para tentar conseguir comprar comida e muitas vezes voltou para casa de mãos vazias: “Teve ocasiões de eu deixar de comer para dar para as minhas crianças. Em outras, eles pediam e choravam de fome e eu não tinha o que dar. Para uma mãe não há dor maior que essa. Você olhar para os lados e não saber o que fazer. Uma realidade que não era só minha mas de inúmeras famílias. Como eu tinha uma irmã que estudava na Unesp em Rio Claro, eu e meu marido resolvemos pegar as crianças e tentar escrever uma nova história para as nossas vidas. Viemos com umas roupas e outras poucas coisas em busca de um recomeço e esse recomeço veio. Sou muito grata aos cidadãos de Rio Claro pelo acolhimento, por tudo”, relembra.
Sobre a captura de Maduro e a esposa Cilia, Lourdes é direta: “Sinto que é o começo do fim. Ele acabou com o nosso país, com muitas vidas e ver as últimas notícias me confortam de certa maneira e me fazem ver uma luz no fim do túnel. Tenho muito vontade de um dia poder retornar”, finaliza.