Araras voltam à natureza com “medalhões” que permitem rastreamento
Na última quarta-feira (23) foi realizada a soltura de 14 araras-canindés na cidade de Araras. Todos os animais foram resgatados pela Polícia Ambiental, tratados por médicos veterinários em centros de triagem e reabilitação, e posteriormente encaminhados para a área de soltura, onde passaram por treino de voo, fortalecimento da musculatura das asas e aprenderam a se alimentar de frutos que encontrariam na natureza.
Os integrantes do projeto Pró-Arara destacam que “a soltura foi uma ação simples, mas cheia de significados para o projeto, e de grande importância para a conservação dessa espécie”.
O projeto
O projeto Pró-Arara é coordenado pelo Instituto Brasileiro de Proteção à Natureza (IBPN). O projeto surgiu com o objetivo de repovoar os céus da cidade de Araras com as araras-canindés, aves que deram origem ao nome do município e que, por muitos anos, estiveram extintas na região. Quem é morador antigo provavelmente lembra que não era possível ver araras-canindés voando por aqui.
O Pró-Arara foi inicialmente idealizado pelo IBPN em parceria com a Prefeitura Municipal de Araras. A partir dessa iniciativa, foi criada uma área específica para soltura de fauna em uma região que faz divisa com o município de Rio Claro, além da implantação de um centro de reabilitação de animais silvestres na cidade de Araras, fundamental para a recuperação de todos os animais selvagens. Atualmente o projeto funciona sem parceria com a Prefeitura, pois segundo os responsáveis pelo projeto, a atual gestão resolveu encerrar a parceria e por conta disso o IBPN tem operado de forma independente.
Desde o início do projeto, mais de 200 araras-canindés já foram soltas na região de Araras. Todos esses indivíduos foram resgatados de situações de tráfico de animais silvestres ou de maus-tratos. Hoje, essas araras voltaram a ocupar seu espaço natural e a reassumir seu papel como símbolo da cidade, sendo comum vê-las voando em bandos ou em casais pelos céus urbanos.
Nos últimos anos, as araras também passaram a se espalhar por cidades vizinhas, tornando-se visitantes frequentes de praças e áreas verdes do município de Rio Claro. A expectativa é que, em breve, elas estejam presentes de forma ainda mais constante, voando livremente por toda a região.
Riscos e desafios
Apesar desse avanço positivo, as araras-canindés ainda enfrentam diversos riscos. Muitos desses animais não têm medo de humanos e se aproximam com facilidade, o que tem levado parte da população, mesmo sem má intenção, a oferecer alimentos inadequados, comprometendo a saúde das aves. Além disso, o contato físico excessivo, como permitir que subam nos ombros ou fazer carinho, acaba tornando esses animais ainda mais dóceis e vulneráveis, aumentando o risco de serem capturadas e colocadas em gaiolas.
Proteger as araras vai além de admirá-las: envolve uma postura ética de respeito à fauna silvestre e aos limites da convivência, entendendo que o melhor cuidado é permitir que esses animais vivam livres, seguros e desempenhando seu papel no ambiente natural.
Outro problema sério enfrentado atualmente é a morte de araras e de outros animais por eletrocussão. Desde 2024 cerca de 14 araras já foram encontradas mortas e eletrocutadas em cidades da região. Em 2026 foram seis mortes apenas no município de Araras. A quantidade de óbitos é subestimada visto a dificuldade de monitorar e encontrar as carcaças. Esses acidentes ocorrem tanto em transformadores de energia quanto na rede elétrica aérea, especialmente nos fios de alta tensão. A concessionária de energia, segundo o Pró-Arara, tem sido lenta na adoção de soluções, mesmo existindo padrões internacionais de redes mais seguras para a fauna, já aplicados em outros lugares do Brasil.
Além da perda de animais, cada caso de eletrocussão pode provocar quedas de energia, afetando diretamente a população e gerando prejuízos econômicos. Por isso, é fundamental que os casos de morte de animais sejam comunicados. Sempre que possível, a orientação é para que a população comunique o projeto por meio do telefone 16 99721-3740 ou registre a ocorrência na Delegacia Eletrônica de Proteção Animal, pelo site www.webdenuncia.sp.gov.br/depa para que essas mortes fiquem oficialmente documentadas e que o projeto possa cobrar providências dos responsáveis.
O projeto Pró-Arara mostra que a recuperação da fauna é possível, mesmo em ambientes urbanos, desde que haja planejamento, engajamento e apoio da sociedade. A presença das araras-canindés nos céus da região é um sinal de que conservar a natureza também é investir em identidade, qualidade de vida e equilíbrio ambiental para toda a região.