No Brasil não existe racismo, é coisa que querem importar, diz Mourão sobre morte de Beto Freitas em mercado

Folhapress/ Ricardo Della Coletta

O vice-presidente Hamilton Mourão lamentou o espancamento de um homem negro até a morte por seguranças de um supermercado Carrefour em Porto Alegre, mas disse não considerar que o episódio tenha sido provocado por racismo. O Brasil marca nesta sexta (20), um dia depois da tragédia, o Dia da Consciência Negra.

Ao comentar o episódio, filmado e divulgado desde o fim da noite de quinta, Mourão afirmou que a equipe de segurança do estabelecimento estava “totalmente despreparada”, mas disse que não existe racismo no Brasil.
As declarações do vice ocorreram no dia da Consciência Negra, em meio a forte comoção após a morte de João Alberto Silveira Freitas, um homem negro de 40 anos que foi espancado por dois seguranças de uma loja do supermercado Carrefour localizada no bairro Passo d´Areia, na zona norte de Porto Alegre.

“Lamentável isso aí. A princípio é a segurança totalmente despreparada para a atividade que tem que fazer”, disse o vice, ao chegar em seu gabinete no Palácio do Planalto, em Brasília.

Questionado se considerava que o episódio mostrava um problema de racismo no Brasil, Mourão respondeu: “Não, para mim no Brasil não existe racismo. Isso é uma coisa que querem importar, isso não existe aqui. Eu digo pra você com toda tranquilidade, não tem racismo”.
O vice foi novamente perguntado por jornalistas se não enxergava um componente racial no episódio. Ele reiterou que não considerava um caso de racismo.

“Não, eu digo para vocês pelo seguinte: porque eu morei nos Estados Unidos. Racismo tem lá. Eu morei dois anos nos Estados Unidos. Na minha escola, o pessoal de cor andava separado, [algo] que eu nunca tinha visto isso aqui no Brasil. Saí do Brasil, fui morar lá, era adolescente, e fiquei impressionado com isso aí”.

Mourão afirmou que morou nos EUA no final da década de 60, quando o debate sobre direitos civis e segregação estava no auge.
“Isso no final da década de 60. Mais ainda, o pessoal de cor sentava atrás do ônibus, isso é racismo. Aqui não existe. Aqui, o que vc pode pegar e dizer é o seguinte: existe desigualdade. Isso é uma coisa que existe no nosso país. Nós temos uma brutal desigualdade aqui, fruto de uma série de problemas, e grande parte das pessoas de nível mais pobre, que tem menos acesso aos bens e as necessidade da sociedade moderna, são gente de cor”.

Segundo informações do site GaúchaZH, o espancamento aconteceu após uma briga da vítima com uma funcionária do supermercado. Ela chamou os seguranças, que levaram Beto Freitas para o estacionamento e o espancaram até a morte.

O Carrefour, por meio de sua assessoria de imprensa, definiu a morte como brutal e anunciou que romperá o contrato com a empresa responsável pelos seguranças. Informou também que vai demitir o funcionário responsável pela loja na hora do ocorrido.

Vídeos que mostram o espancamento e a tentativa de socorristas de salvarem Beto circulam nas redes sociais desde a noite de quinta-feira (19) e provocam a mobilização de ativistas contra o racismo.

Beto morreu na véspera do Dia da Consciência Negra, comemorado nesta sexta-feira (20) em referência à morte de Zumbi, o líder do Quilombo dos Palmares, localizado entre Alagoas e Pernambuco.

Os dois candidatos à prefeitura de Porto Alegre falaram sobre o caso.
Manuela d’Ávila (PC do B) informou que há uma manifestação marcada para as 18h desta sexta, na loja do Carrefour.

“Estava no debate da Band e na saída soube do assassinato de um homem negro pela abordagem violenta dos seguranças do estacionamento do Carrefour. Sei que já há pedido de investigação sendo feito por parlamentares e pela bancada antirracista recém eleita. Mas as imagens dizem muito”, ela afirmou.


Sebastião Melo (MDB) chamou a morte de absurda e disse que as cenas dos vídeos são chocantes. “Justamente no dia nacional de luta contra o racismo. Medidas rigorosas devem ser tomadas imediatamente”, disse

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