Hábitos saudáveis afastam obesidade da vida de rio-clarenses

Os dados mais recentes do Vigitel, divulgados no fim de janeiro de 2026, confirmam o avanço das doenças crônicas não transmissíveis no Brasil, com destaque para obesidade, diabetes e hipertensão. O levantamento, realizado pelo Ministério da Saúde nas capitais e no Distrito Federal, mostra que o excesso de peso em adultos saltou de 42,6% em 2006 para 62,6% em 2024. No mesmo período, a obesidade passou de 11,8% para 25,7%, enquanto o diabetes subiu de 5,5% para 12,9% e a hipertensão atingiu 29,7% da população adulta.

Apesar do cenário preocupante, alguns indicadores apontam avanços. A prática de ao menos 150 minutos semanais de atividade física cresceu de 30,3% em 2009 para 42,3% em 2024, e o consumo de refrigerantes e sucos artificiais caiu quase pela metade. Já o consumo de frutas e hortaliças segue estável. O levantamento também trouxe dados sobre sono: 20,2% dos adultos dormem menos de seis horas por noite e 31,7% relatam sintomas de insônia.

Para a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), os números reforçam a necessidade de ampliar ações de prevenção, diagnóstico precoce e promoção de hábitos saudáveis. O alerta ganha ainda mais relevância com a proximidade do dia 4 de março, quando é celebrado o Dia Mundial da Obesidade, data que chama atenção para a importância do enfrentamento dessa condição e de seus impactos na saúde pública.

Carolina Sciamana de Moraes, de 32 anos, natural de Rio Claro, mas atualmente morando na capital, decidiu mudar de vida após enfrentar frustrações que marcaram sua autoestima. A gota d’água aconteceu durante a busca pelo vestido de noiva.

“Eu já vinha começando a flertar com a ideia de operar, mas achava que estava exagerando, que não era pra mim. Até que comecei a experimentar vestidos de noiva e foi uma experiência horrível”, relembra.

Segundo Carolina, o atendimento nas lojas a fez perceber o quanto sua relação com o próprio corpo estava limitada. “As lojas de ‘nome’ me tratavam super mal. Não traziam as opções que eu pedia, mas o que ‘dava’ ou o que ‘servia’. Eram poucas opções e horríveis. Eu não estava mais escolhendo roupas, eu estava ficando com o que servisse”, conta. Na época, Carol havia acabado de completar 30 anos e passou a refletir sobre a necessidade de uma mudança mais profunda.

O processo teve início em setembro de 2024, quando Carolina realizou uma cirurgia bariátrica do tipo by-pass. Desde a alta hospitalar, recebeu orientação para iniciar caminhadas e, em poucas semanas, começou a frequentar a academia.

“Fui liberada com duas semanas, mas comecei com três. Desde então não parei mais”, afirma. Hoje, ela treina cinco vezes por semana e mantém uma rotina alimentar regrada. “Faço refeições de três em três horas, priorizo proteínas por causa da saciedade e do meu metabolismo após a cirurgia”, explica. Ela também faz uso diário de polivitamínico e reposição de vitaminas D e B12, com acompanhamento regular de endocrinologista.

As mudanças, segundo Carolina, vão além da balança. “Parece besteira, mas absolutamente tudo mudou: meu sono, autoestima, rendimento no trabalho, energia, humor e até meus sintomas de TDAH e depressão”, relata. Mãe de Liam, ela diz que ganhou disposição para atividades simples do dia a dia. “Hoje tenho vontade e energia para fazer programas com ele, como ir ao pula-pula”, diz.

A transformação também se reflete na forma como se enxerga. “Agora eu entro numa loja e escolho exatamente a roupa que eu quero. Isso não tem preço. Comprar sem medo se vai servir ou se vai ficar bom, e comprar do meu gosto mesmo”, conclui.

Aos 34 anos, a produtora cultural Camila Cardoso, natural de Rio Claro e hoje residente em São Paulo, olha para o retrovisor de sua própria trajetória com a clareza de quem escapou de um destino traçado pela genética e pelo sedentarismo. Sua jornada de transformação não nasceu de uma promessa estética de ano novo, mas de um ultimato silencioso do próprio corpo. Após passar o ano de 2024 tentando mudar seus hábitos sem orientação, Camila se viu mergulhada em uma exaustão que o repouso não era capaz de curar. “No final de 2024 eu estava me sentindo muito cansada, não tinha vontade de fazer nada; era como se fosse um sono, um cansaço eterno que não passava, por mais que eu dormisse o dia todo”, relembra.

O divisor de águas aconteceu no consultório médico. Ao buscar uma nutróloga e um endocrinologista, Camila deparou-se com exames alterados. O alerta da especialista foi o choque de realidade necessário para interromper um ciclo de décadas.

“Eu lembro dela falar assim: ‘olha, por enquanto a gente vai tratar prevenção, mas se você não mudar o seu estilo de vida, a gente vai tratar doença’. Ali virou uma chavinha”, conta a produtora. A médica foi direta ao prever diagnósticos de diabetes e colesterol alto em um futuro próximo caso nada fosse feito. Para Camila, o medo superou qualquer outra motivação.

“Eu sempre falo que para mudar de vida as pessoas precisam ter um porquê. No meu caso foi por conta de saúde. Tive muito medo porque já tenho um histórico na família de diabetes e pressão alta, e fiquei com medo de ficar doente de uma forma que não fosse possível reverter”.

A mudança começou efetivamente após as férias de janeiro de 2025. O que antes era uma vida descrita por ela como uma “grande festa”, marcada por bebidas, noitadas e a consequente ressaca física e simbólica, deu lugar ao que ela chama hoje de “celebração”. Para Camila, a rotina de cuidados diários é o que garante sua liberdade.

“Hoje eu vivo contemplando o que é essa existência. Não tenho mais problemas de saúde, fiz uma bateria de exames no fim do ano e está tudo certo. Consigo subir escadas sem me sentir cansada e já fiz até duas provas de corrida de 5 km”, comemora. Atualmente, ela mantém uma frequência rigorosa de musculação, de cinco a seis vezes por semana, e vê no espelho um corpo que reflete sua nova vitalidade. “Hoje eu quero saúde, mas também quero um corpo mais bonito e condicionamento físico. Quero ser uma senhorinha que vai no samba e aproveita, quero longevidade com autonomia”.

Trabalhando em regime de home office, Camila estruturou seu dia para que o autocuidado não seja um fardo, mas parte do expediente. “Minha rotina me deixa com uma flexibilidade muito grande. Gosto de treinar duas vezes no dia: a musculação em um horário e o cardio em outro. O que eu gosto de fazer é acordar, tomar meu café e fazer musculação. Volto, trabalho, e à noite treino uma corrida ou bike”, explica. Na alimentação, ela foge das dietas mirabolantes e aposta no “básico que funciona”, com quatro refeições sólidas e sem beliscos entre elas. “Eu costumo dizer que a gente não mora no restaurante self-service; nossa vida não é um buffet para ter 30 tipos de salada. Eu como o que tem: alface, legumes, arroz, feijão e uma proteína, nada muito difícil de fazer”.

Apesar do sucesso individual, Camila encerra sua reflexão com um olhar crítico e social sobre o processo de emagrecimento e saúde. Ela defende que a mudança de hábito é uma questão complexa que vai além da força de vontade individual, envolvendo o acesso a alimentos de qualidade e ao tempo para o autocuidado.

“A gente precisa entender o processo político de como não nos são ofertadas essas relações de cuidado. Não somos ensinados a nos cuidar, somos ensinados a comer qualquer coisa, como os ultraprocessados que dominam os mercados. Mudar de hábito é muito mais complexo do que só querer; é ter a oportunidade de fazer tudo isso e passar pelo processo”, conclui.

Laura Tesseti: