Favari Filho

Xodó

Como a maioria dos adolescentes nas cidades do interior, os meninos de Cafundó gostam de andar a cavalo. A Vila de Cafundó, como é conhecida a colônia da Fazenda São Tomé, é um lugar em que os garotos ainda jogam peão e bolinha de gude, as meninas pulam corda e brincam de amarelinha e, juntos, meninos e meninas se divertem brincando de esconde-esconde ou pega-pega. Contudo, a diversão predileta de João, José, Jorge e Jeremias é cavalgar. Cada um no dorso de seu cavalo, sempre juntos galopando pelas ruas de terra ou correndo até o estradão que fica depois da curva quando a trilha emparelha com o rio que passa ao fundo da selaria.

O cavalo de Jeremias, um mangalarga marchador, preto com uma cernelha altiva e imponente arranca elogios de todos por onde passa. Seu nome é Xodó. O cavalo de José, um mangalarga paulista chamado Brancão, é dono da melhor e mais bonita marcha trotada jamais vista em toda aquela região. Jorge e João cavalgam ambos em dois desses cavalos comuns brasileiros descendentes da raça berbere. O primeiro, um alazão com uma bela crina que atende por Ticão; já o segundo o chamam de Maiado e é um tordilho lindo.

No fim da rua, um mata-burro separa a vila do caminho que leva as duas represas da fazenda: a Lagoa do Veinho e a Lagoa Seca, onde todos os meninos e meninas da colônia gostam de nadar enquanto os pais trabalham e que os pais pescam enquanto os filhos dormem nas madrugadas do fim de semana. Antes de alimentar os cavalos é comum os meninos realizarem pequenas corridas na rua do curral. Depois, apeiam e guardam os cavalos que pertencem ao Doutor Antônio – dono da fazenda e patrão dos pais dos garotos – um senhor de meia idade com marcas de sofrimento no rosto devido ao desprezo dos filhos e o abandono da mulher.

A colônia com quatro ou cinco ruas e pouco mais de uma dezena de casas fica mais ou menos no centro da fazenda. O conglomerado de residências é rodeado por um enorme terreirão, antes usado para a secagem do café, uma carreira de seringueiras e, à direita, por um rico pomar com laranjeiras, mangueiras, jabuticabeiras e jaqueiras de onde tem início uma longa estrada de uns cinco quilômetros que termina na rodovia que leva a cidade mais próxima. A Vila de Cafundó é um lugar calmo e longe da civilização.

Como sempre fazem quando estão a caminho da cidade, os meninos resolveram correr em linha reta, porém desta vez com um desafio ainda maior: a largada seria como sempre, a partir da palmeira há quatrocentos metros da porteira, contudo diferente das outras vezes, venceria aquele que passasse da entrada oficial da fazenda. O problema é que a porteira com a placa Fazenda São Tomé ficava a apenas três metros da rodovia. Uma distância que tornava a corrida muito arriscada, pois o vencedor não teria tempo suficiente de parar o cavalo sem antes entrar na pista.

João, montado em Maiado, saiu à frente galopando passos largos, seguido por Xodó com Jeremias no comando. Os outros dois cavalos atrasaram na largada, mas logo se posicionaram a par dos demais. A corrida seguia empatada. Faltando uns cinquenta metros para chegar à porteira, João puxou o freio do tordilho e o cavalo foi desacelerando. José e Jorge da mesma forma diminuíram a velocidade temendo o pior. Já Jeremias deu com a espora na virilha de Xodó, que disparou feito um foguete deixando a porteira para trás.

Há alguns quilômetros da entrada da fazenda, Chicão – um caminhoneiro apaixonado pela profissão – ouvia no rádio de sua Scania 112-HS: “O ex-ministro da Casa Civil José Dirceu foi liberado na última terça-feira para cumprir em prisão domiciliar o restante da pena. Condenado por corrupção ativa no julgamento do mensalão, o detento assinou o termo após cumprir onze meses e vinte dias da pena de sete anos e onze meses estipulada pelo Supremo Tribunal Federal.”

Ao passar pela porteira da fazenda, o caminhoneiro nem imaginava que presenciaria a vitória de Jeremias e o seu Xodó em um turf entre adolescentes. No momento equidistante em que Jeremias puxou o freio e saiu pela esquerda diminuindo a velocidade de Xodó entre o barranco e o acostamento, Chicão tirou o pé do acelerador e puxou a buzina o caminhão.

O caminhoneiro, que acabara ouvir tamanho absurdo no rádio, refletia sobre a injustiça, a impunidade e o descaso das autoridades no Brasil e no quanto o povo brasileiro é melhor que os seus representantes em todas as esferas representativas – ainda que não tenha convicção disso –, contudo deixou escapar um sorriso afetuoso ao ver o garoto comemorando a vitória sobre seus colegas com o punho cerrado e a coragem que habita o espírito dos jovens.

O Brasil é uma república federativa cheia de caminhoneiros precavidos, garotos que disputam corridas com cavalos e políticos impunes.

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