Favari Filho

Um só…

Um dos três assíduos leitores deste Confessionário Quinzenal perguntou recentemente por que não tenho mais escrito sobre política. Pois bem, a década de 1990 produziu muitas coisas bacanas que merecem destaque, como por exemplo o quarto álbum da banda Engenheiros do Hawaii, obra que trouxe contribuições importantes para o rock nacional; o Papa é Pop, definitivamente, tem algo característico que acentua o sabor daquele início de fim do século XX.

Tinha catorze anos quando fui presenteado pela minha mãe com a fita cassete e, a partir daquele momento, o meu Toshiba RT 110-S passou a executar, repetidamente, por horas e horas, aquela obra-prima que contém as seguintes canções: ‘O exército de um homem só I’; ‘Era um garoto que, como eu, amava os Beatles e os Rolling Stones’; ‘O exército de um homem só II’; ‘Nunca mais poder’; ‘Pra ser sincero’; ‘Olhos iguais aos seus’; ‘O Papa é Pop’; ‘A violência travestida faz seu trottoir’; ‘Anoiteceu em Porto Alegre’; ‘Ilusão de ótica’; e ‘Perfeita simetria’ [faixa que, aliás, foi lançada apenas nas versões K7 e CD].

Entre todas estas músicas, ainda hoje fico comovido com aquele trecho de ‘O exército de um homem só I’ que diz: “Não interessa o que diz o ditado, não interessa o que o Estado diz, nós falamos outra língua, moramos em outro país; somos um exército (o exército de um homem só), sem bandeira, sem fronteiras para defender; nesse exército (o exército de um homem só), todos sabem que tanto faz ser culpado ou ser capaz… Tanto faz…”.

Ao mesmo tempo em que as emissoras de rádio executavam os hits do disco, os anos 1990 seguiam arrastados com uma tremenda instabilidade econômica – o desespero do confisco das poupanças promovido por Fernando Collor de Mello – e os seguidos escândalos envolvendo o governo, além da pouca perspectiva de futuro com a corrupção alastrada nas esferas do poder [mas que, comparada às revelações da Operação Lava-Jato, soam apenas como um simples roubo de carteira] que, mais tarde, levaria milhares de jovens [mobilizados por uma forte campanha de mídia promovida por jornalistas bolcheviques?] a criarem o movimento ‘Caras Pintadas’ e a pedirem o impeachment de Collor [o que, de fato, não chegou a acontecer, pois, diferente de Dilma Rousseff, o Caçador de Marajás – por pânico ou brio – ao ver o castelo ruir renunciou à Presidência da República].

Enfim, ambos os acontecimentos foram destaques nas páginas dos jornais e revistas da época e, hoje, pouco mais de vinte anos depois, são fatos irrelevantes que constam apenas da História do País. Isto posto, concluo: análises ou pontos de vista do que quer que seja não mudam a direção de coisa alguma! Os acontecimentos são sucedidos uns por outros na velocidade da luz e tanto faz ser culpado ou ser capaz. Fatalismo? Não! Apenas uma dose, exagerada, isso sim!, de realismo sem bandeira. Talvez! Portanto, respondendo à pergunta, em política, como em qualquer outro assunto, não há muito mais o que dizer e que já não tenha sido dito em algum lugar do tempo, nas páginas amareladas e esquecidas dos jornais de amanhã. Com pouco mais que poucas palavras, sigo optando por outro assunto qualquer, pois o pop não poupa ninguém!!

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