Favari Filho

Último olhar

Olha, confesso que para esta semana pensei em escrever sobre a falácia do ex-presidente Luiz Inácio – aquele que se autodenominou a vivalma mais honesta do Brasil –, ou discorrer acerca dos patéticos vídeos de apoio ao “pai dos pobres e mãe dos empreiteiros” que circulam na internet com a participação de correligionários da Câmara e do Senado, além, é claro, dos prefeitos paulistas todos de mãos dadas como em uma espécie de reza pagã corroborando com os vícios do ‘el gran salvador’ que levou a República à bancarrota.

Pois é, como bem definiu em nossa penúltima conversa, o partido de Dilma Rousseff decepcionou todos os brasileiros e não há nada mais cruel que a decepção. A decepção e a ausência, aliás, são sentimentos siameses que ferem profundamente. Com o primeiro, a frustração emerge do descumprimento daquilo que foi firmado, um desapontamento; já, com o segundo, a dor é devido à anulação da presença, o que, portanto, acaba com qualquer expectativa de planejamento ou pacto para o futuro.

Ora, conclui entre o parágrafo anterior e este que inicio, vou falar de sua repentina ausência e da falta que já faz, mas tinha que partir em um dia de clássico, não é mesmo? Estava no rancho dando andamento à construção de mais um espaço de lazer no intuito de manter a família unida quando recebi o telefonema. Sempre tive comigo que preciso seguir seu exemplo e manter todos juntos ao redor da mesa, apesar das idiossincrasias. Hoje [escrevo no domingo depois de seu enterro], tínhamos combinado estar juntos e ver os avanços da obra, mas você partiu antes do combinado e, acredito, para que não tivesse uma passagem turbulenta, horas depois, o seu amado Palmeiras fechou os noventa minutos em 0X0 contra o Santos.

Jamais esquecerei quando, aos nove anos, me ensinou a dirigir; foi a maior aventura do mundo para um garoto apaixonado por carros e que vou contar para os meus filhos, netos, enfim… Também do dia em que atravessamos as ruas da Cascata com aquele barco de motor azul e chegamos à varanda da casa quase coberta de água naquela inigualável cheia do Mogi em 1991; e das discussões políticas travadas durante as intermináveis tardes de domingo, quando juntava todo mundo na casa da vó, mais tarde nos natais e, recentemente, sempre que estávamos juntos. Com você, definitivamente, aprendi muito sobre as nuances da política e ainda guardo comigo seu último olhar de decepção com o desgoverno atual.

Na tarde do sábado, a Vi e eu rodamos pelas ruas do Jardim Cândida enquanto esperávamos a liberação do seu corpo e, confesso, não há um só lugar daquele bairro que não remeta a lembranças suas; mesmo sabendo que devo continuar travando a minha luta com as palavras [como costumava dizer], não poderia deixar de dedicar o espaço desta coluna a você, tio, não porque você tenha sido uma pessoa sensacional do ponto de vista do sobrinho e companheiro de aventuras, mas porque morreu acreditando e lutando para este País voltar a ser Nação. Sua memória ficará para sempre em meu coração. Até um dia, Gordão! Esteja em paz!

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