Favari Filho

Sr. Wilson

Hoje foi o dia da minha defesa de mestrado. Estive o dia todo em Campinas e deu tudo certo, agora já sou mestre! Há alguns dias que estou em uma tremenda correria e sabia que hoje não teria texto inédito aqui no blog. Pensei ainda na semana passada em publicar uma crônica que escrevi e que saiu no Jornal Cidade há alguns meses e, acreditem, coincidentemente, na segunda-feira ligaram na redação me procurando por causa da referida, acreditam? Pois é, a senhora que me procurou disse para a pessoa que atendeu ao telefone que conhece o senhor Wilson e que gostaria muito de falar comigo. Retornei a ligação algumas vezes, porém não a encontrei e ainda não conversamos. Creio que novas histórias vêm por ai! Aguardem! Para quem já leu a crônica no jornal fica a oportunidade para uma segunda leitura, já para quem ainda não viu espero que gostem! Obrigado a todos os amigos pela corrente positiva neste dia que para mim, com certeza, será inesquecível. Até a semana que vem!

***

Outro dia estava no supermercado fazendo compras para a semana, habito que se tornou comum depois do casamento. Minha esposa e eu gostamos muito do ritual das compras e fazemos com certo prazer, sempre aos fins de semana. Andar por entre os corredores observando preços e produtos nas mais variadas cores tudo exposto nas gôndolas não é de todo o ruim, mas ainda assim sei que há muita gente que não gosta. Estava no setor das frutas, verduras e legumes quando me deparei com um antigo conhecido e que há muito tempo não encontrava. Na verdade, o vi algumas vezes no trânsito, mas nada que fosse tão próximo quanto o ocorrido no sábado. Indeciso entre o tomate Carmem ou o Débora, optei pelo primeiro e, nesse instante, essa pessoa muito especial para a minha formação – ainda que não saiba disso – começou a escolher a fruta do meu lado.

Em 1992, eu cursava Edificações no Chanceler Raul Fernandes. Logo nos primeiros meses descobri que não tinha muita envergadura para o assunto. Confesso que tentei, porém não havia jeito de me envolver com o curso. Assistia, às vezes, a primeira e a segunda aula e no intervalo ia para a biblioteca onde ficava até a hora da saída. Foram três tentativas frustradas até perceber que não pertencia a área das Exatas: Edificações, Contabilidade e Processamento de Dados. Entrava, via algumas aulas e descobria que não era nada daquilo que queria. Assim foram três anos em que passava a maior parte do meu tempo naquele templo de livros. Posso afirmar que aprendi muito mais nesse período em que eu passei horas inteiras dentro da biblioteca, fuçando os livros, do que propriamente o tempo que passei (ainda que tenha sido muito pouco) dentro da sala de aula.

A biblioteca não era muito grande se comparada as que eu viria a conhecer depois, mas, recordando agora, me parecia muito grande. Ler sempre foi uma das minhas maiores paixões e naquele local descobri muita coisa interessante. Coisas que contribuíram para minha formação, ainda que não tivesse consciência disso à época.  Lia de tudo e de forma muito desconexa, apenas com alguma orientação do senhor Wilson. Hermann Hesse, Aldous Huxley, Paulo Coelho, George Orwell, Roberto Shinyashiki, Drummond, Pessoa, entre outros, foram autores que descobri ali. Alguns estão comigo até hoje, outros se perderam durante a trajetória. Lembro que foi nessa época que reli Alice no País das Maravilhas e também alguns daquela série O Autor por Ele Mesmo, da Martin Claret. Tinha um do Raul Seixas com frases de efeito destacadas com as quais eu gostava de ficar refletindo. Havia acabado de entrar em contato com a produção musical do Maluco Beleza. Sua morte ainda era recente e tudo a seu respeito me interessava muito naquele momento.

Deslizando o dedo indicador pelas lombadas dos livros, seguia garimpando algo novo – ainda que tudo fosse muito novo – ou talvez algo que fizesse parte do meu parco repertório de conhecimento. Aquele mundo paralelo à escola era o que de mais interessante um garoto de quinze anos como eu poderia querer. O que eu não locava para ler em casa, ou na hora do almoço no trabalho, lia ali mesmo. O silêncio da biblioteca sempre me foi ensurdecedor, tantas coisas para serem ditas em tão pouco tempo. Quanto conhecimento querendo saltar para fora das páginas em busca de alguma atenção. Senhor Wilson era quem tomava conta da biblioteca. Nunca soube qual a sua função específica, o que sei é que sempre estava lá anotando empréstimos e sugerindo algumas leituras.

Quando começou a escolher o tomate do meu lado, no mercado, olhei esperando que talvez me reconhecesse, mas não foi o que aconteceu. Disse: “Olá senhor Wilson, tudo bem?” Ele ainda que não me reconhecesse, respondeu: “Oi, tudo bem. Você me conhece da escola, não é mesmo?”. “Sim” – rebati. Em seguida, silêncio entre pessoas e tomates. Tive certeza que não se lembrou de mim, mesmo porque muita gente deve ter passado por aquela biblioteca. Terminei de separar os tomates, comentei o ocorrido com minha esposa que voltava da seção dos frios e retornamos para casa satisfeitos com os tomates e certos da importância dos livros e de pessoas como o senhor Wilson para a formação de cidadãos.

Foto: Grupo Kino-Olho

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