Fabíola Cunha

Shit just got real!

Na minha lista de guilty pleasures no cinema, “filme com Seth Rogen” ocupa o topo, junto a “filme com Steve Carell”, “filme com Will Ferrell” e “filmes baseados em Jane Austen”. Daí que eu acompanhava tranquilamente as notícias sobre “The Interview”, nova comédia dele com o amigão James Franco, esperando o lançamento para comer pipoca e rir por 90 minutos.

Eis que então, de repente, “The Interview” parece ser o causador de uma celeuma tão grande que hackers resolveram expor os podres da Sony e boatos aparecem sobre como o ditador norte-coreano Kim Jong-un está bravíssimo com o fato de que o filme é uma piada sobre dois jornalistas boçais tentando matá-lo a mando da CIA.

Desconfiei de golpe publicitário. A regrinha do “falem mal, mas falem de mim” está elevada à quinquagésima potência nas últimas décadas, com casos provando que as pessoas, as empresas e as corporações não se importam em matar (inocentes anônimos) ou morrer (de forma heróica e moralista) por um pouco de espaço na mídia. Nada mais conveniente do que vender o longa como uma semeador de discórdia para angariar mais lucro na bilheteria.

Radall Park interpreta uma versão mimada, egocêntrica e fã de Katy Perry do pequeno grande ditador norte-coreano

Randall Park interpreta Kim Jong-un como um sujeito mimado, egocêntrico e fã de Katy Perry

Então shit just got real. A Sony cancelou a estreia do filme, que ia acontecer em grande escala neste Natal depois que hackers expuseram e-mails, roteiros e outras cositas más, num ataque considerado sem precedentes. E dá-lhe ameaças terroristas caso o filme fosse exibido, com direito a menção ao 11 de Setembro. Nos Estados Unidos você pode esculhambar tudo, menos o 11 de Setembro.

O presidente Barack Obama, como se não tivesse mais o que fazer, pronunciou-se oficialmente pró-filme, dizendo algo tipo “vamos lá Sony, eu te dou cobertura, exibe a parada aí, larga de frescura”. Agora a Sony voltou atrás e autorizou a exibição em cerca de 200 salas de cinema independentes nesta quinta-feira (25) e promoveu algo único: desde às 16h de ontem, quarta-feira (24), serviços on-demand disponibilizaram o filme, ao custo de 6 dólares para locação e 15 dólares para compra: Youtube, Google Play, Xbox Video e outros serviços do gênero. A informação foi veiculada primeiro por Brian Stelter, da CNN.

A ironia é que as críticas que já foram divulgadas dão a entender que é muito barulho e ameaça terrorista por nada: o filme é uma comédia escrachada, na linha de outros filmes da dupla (“Segurando as Pontas” e “É o fim”), mas está longe de ser subversivo o suficiente para merecer tantas caras de espanto.

O ataque hacker, no entanto, parece ter exposto o quão frágeis são as grandes corporações como a Sony, e pede revisão de critérios de segurança e de comunicação – e-mails em que chefões do estúdio detonavam Angelina Jolie caíram na rede, por exemplo.

Mais sorte na próxima, Rogen e Franco!

Mais sorte na próxima, Rogen e Franco (e filhotinho)!

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