Favari Filho

Se o rádio não toca

Ouvindo o ‘Let Them Talk’ de Hugh Laurie, enquanto observo da varanda a luz vermelha avisa aviões do Front Lake, cogito acerca do triste fim da ‘música’ executada no Brasil e, sobretudo, da figura do artista que, em detrimento da capacidade antes exigida, vive agora da efeméride das subcelebridades. Sucessos pré-fabricados à custa de muito dinheiro e nenhum talento inundam as emissoras de rádio, fazendo com que o cidadão brasileiro comum – limitado de qualquer contato com outro tipo de música – siga “caminhando e cantando” canções onomatopaicas com duplo sentido e nenhum valor estético. Sem perceber, infelizmente, que alimentam o bárbaro moto-contínuo criado para suprir dois desejos: enriquecer os empresários e distrair os ouvintes.

A alta cultura, felizmente, existe para que seja possível a comparação, ou seja, MC Guimê jamais será colocado no mesmo patamar que Caetano Veloso. Não em sã consciência! [Confesso que pensei em comparar o funqueiro com Chico Buarque, mas, assim como Millôr, “desconfio de todo idealista que lucra com seu ideal”]. O fato é que a indústria fonográfica deixa o cidadão sem escolha devido à proliferação do lixo musical que prega a patuscada e a ostentação. Acredito que haja pessoas que gostam verdadeiramente do que toca nas éfeêmes, porém a sinceridade com que apreciam o que ouvem é do tamanho da ignorância [veja, uso a palavra no sentido da ausência de conhecimento, ok] que têm dos outros estilos musicais.

Antes dos anos 1980, o que mais tocava nas rádios do País eram as músicas internacionais e Artistas brasileiros com ‘A’ maiúsculo – eternos figurões da MPB – tinham um mínimo de espaço. A partir da invasão do ‘Rock 80’, uma geração cabeça feita – que bebeu na fonte dos anos 1960 e 1970 – e com muito a dizer fez a cabeça de outra geração e, pasmem!, tudo através das ondas de rádio. À época, o espaço era mais bem dividido e havia um pouco mais de opções; hoje, o ouvinte ‘não iniciado’ tem acesso a apenas aquilo que é pago para ser tocado, criando uma falsa ilusão de que é o que gosta e, definitivamente, não é!

Os ‘iniciados’ com alguma curiosidade têm a opção das rádios segmentadas, umas de músicas internacionais, outras apenas de MPB e também aquelas cuja parada de sucesso fica entre os astros do rock. Todas, inclusive, apresentando excelentes artistas atuais, que, aliás, são em grande número e têm muito mais a dizer que “tche tcherere tche tche”, “parapapá”, “senta e quica, vai novinha” e outras tantas besteiras. Longe de querer soar aqui como um ‘caga-regra’, creio veementemente que, assim como os pais, para além de criar devem educar os filhos; assim como o jornalismo, para além de informar, deve formar; a música, para além de apenas alegrar, deve inspirar.

Há muito tempo percebo um movimento encampado por aqueles que esbravejam contra as ‘zelite’ [para lembrar o querido Ubaldo] e suas canções, opiniões, moda e comportamento no intuito de destruir o que é perene e de fazer eterno aquilo que é fugaz. Aquela mesma turma-defensora-de-tudo-e-de-todos que quer convencer a qualquer custo que o que está na parada musical é uma “manifestação popular” inédita “nunca antef vifta na hiftória defte paíf”. Uma enorme bobagem! Não será espanto, amanhã ou depois, descobrirem um megaesquema de compra de horários em emissoras arquitetado pela intelligentsia sinistrômana no intuito de diminuir a capacidade intelectual do povo para que, junto com o dinheiro desviado da Petrobras, seja perpetuada [toc, toc, toc] no poder. Vai saber…

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