David Chagas

SAUDADES SUAS

Não vou chamá-lo Big Dário, meu caro Júnior, porque este sempre foi o tratamento que lhe dispensei desde o instante em que, quase com a mesma idade, fui seu professor no Batista Leme.

Irineu André Dário Júnior. Big Dário. Quantos na cidade poderão saber que é de você quem falo, nesta manhã nova de sexta-feira, dia seguinte do seu enterro, obrigando-me a mim, aos seus, e a tantos que estiveram ali, solidários com sua esposa e filhos, a dizerem adeus.

Não quisera ter estado ali naquele instante assistindo àquele espetáculo de dor. Não quisera poder ouvir de Carmen as tantas coisas bonitas que me falou sobre você, sabendo que não mais poderia ver seu sorriso e ouvir sua voz e seus argumentos a respeito da música e da vida.

Você, na transubstância de luz a que se entregou deve ter sabido, agora, da dimensão do vazio que causa sua ausência. Rio Claro continua sendo. O céu continua azul. A vida prossegue. Mas ausência e falta impedem que tudo se complete. Falta você. Que pena!

O velho professor se recolhe diante do papel e escreve para o garoto, aquele, da sala de aula, quando as idades se confundiam fazendo saber, apenas, que, de um lado estavam os alunos e à frente deles, o professor, para, agora, marcado pela tristeza, dizer adeus ao aluno querido.

Diante de seu esquife, ao lado de seu filho Thiago, de sua filha Amanda, olho funda e profundamente, e revejo a história, quando menino ainda você despertava para o amor ao lado de Carmen, sua eterna companheira, a quem eu mandava lembranças e carinho naqueles velhos dias e você, feliz, saía da escola para encontrar-se com ela.

Meu Deus, meu Deus! Por que tudo tão pouco e tão rápido? Fernando Pessoa, o poeta que eu, naquela última série de ginásio apresentei a vocês, dá a resposta:

A morte chega cedo,

Pois breve é toda vida

O instante é o arremedo

De uma coisa perdida.

O amor foi começado,

O ideal não acabou,

E quem tenha alcançado

Não sabe o que alcançou.

E tudo isto a morte

Risca por não estar certo

No caderno da sorte

Que Deus deixou aberto.

O meu caderno da sorte, meu caro Júnior, permanece aberto. Não sei até quando. Só mesmo Deus. O seu, fechado, reabre-se diante de Deus. Não me resta dúvida disso. Posso até saber que seu sorriso largo, sua voz amiga, seu jeito bom, capaz de convencer Deus e os anjos e santos dele a estarem, aí, com você, recolhendo os talentos da música para saraus de paz. Fique bem, meu aluno querido. Olhe longamente pela luz de seu espírito para a terra e abrande, com seu jeito bom, a nossa tristeza. E diga a indesejada das gentes que jamais poderia chegar de forma tão sorrateira, deixando-nos para sempre o vazio da sua ausência.

Muitas saudades suas.

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Um comentário

  • mariangela valle pedroso
    7 de junho de 2015 - 22:30 | Permalink

    Que lindo, Chagas!

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