Fabíola Cunha

A reinvenção de Spacey e das séries como as conhecemos

As indicações ao Oscar saíram nesta quinta-feira (15) e estão em diversos sites de entretenimento pelo mundo como o grande acontecimento do cinema comercial. Alguns títulos eram apostas certas entre os indicados, como “Boyhood”, “Birdman”, “A Teoria de Tudo”, “Grande Hotel Budapeste”, etc.

Mas hoje eu quero falar de coisa boa, eu quero falar de Tec…ooopa, não, eu quero falar de séries televisivas. Ou mais ou menos televisivas. Eu quero falar de “House of Cards”.

No dia 27 de fevereiro o serviço de streaming Netflix vai soltar todos os episódios da terceira temporada da série de uma vez, para você assistir quando e como quiser. Quer ver tudo de uma vez? À vontade. Vai ver um por semana como se fosse TV? Tudo bem também.

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Mas o que tem a ver “House of Cards” com o Oscar? Nada e tudo. Quando Kevin Spacey, protagonista e produtor de HofC, subiu ao palco para receber o Globo de Ouro de Melhor Ator em Série Dramática no último domingo (11), ele já havia deixado lá atrás, bem longe, os Oscars que ganhou, de melhor ator coadjuvante (“Os Suspeitos”, 1996) e Protagonista (“Beleza Americana”, 2000).

Spacey é um caso de reinvenção bem sucedida. Ator de teatro prolífico nos anos 80, versátil e clássico, ele construiu uma carreira de papeis coadjuvantes fortes em todos os gêneros cinematográficos. Aos 55 anos mantém-se uma ameaça em três frentes: teatro, TV e cinema.  Mas foi com HofC que ele deu um passo maior que a perna de todo mundo, até mesmo pela idade em que está, superando atores muito mais jovens e badalados. Ele decidiu investir nessa série inteiramente produzida pela Netflix, que não é transmitida por canal algum e que fala sobre as entranhas do poder em Washington.

É claro que você consegue comprar os DVDs com as duas primeiras temporadas ou baixar em sites por aí. Mas o ponto é da Netflix, de Spacey e do produtor David Fincher (que dirigiu o ator em “Se7en” recentemente comandou “Garota Exemplar”).

Em uma entrevista para divulgar HofC, Spacey contou uma história hilária sobre como ele e Fincher sentaram-se com os representantes da Netflix sem a menor esperança de conseguir fechar contrato. No fim da conversa, seus “empregadores” anunciaram que iriam produzir a série e precisavam saber quantos episódios Fincher e Spacey tinham preparado para gravar…e eles não tinham a mínima ideia. Então inventaram um número ali mesmo: 13 episódios por temporada.

Foi um tiro no escuro. A série é adaptação de uma novela que já havia sido adaptada pela BBC na Inglaterra nos anos 90. Narra a jornada sangrenta e retumbante de um congressista rumo ao topo da cadeia alimentar da política norte-americana, destroçando tudo e todos pelo caminho, e se ferindo também. Tem pinceladas de Ricardo III e Macbeth – a relação ambígua com a esposa, papel da magnífica Robin Wright, é um dos muitos pontos altos.

É por vezes engraçada, triste, enervante e violenta, mas nunca entediante, mesmo com tantas citações às formalidades da política. É uma série exigente, como foi “Breaking Bad”, como foi “Os Sopranos”. É rica e complexa, algo que se esperaria de filmes, não de séries, e aí entra o porquê de falar do Oscar no começo deste post: o cinema comercial já não gera tanta expectativa quanto há 15 anos atrás, quando “Os Sopranos” estreou e Spacey levava pra casa seu segundo Oscar. Já os limites para as séries, seja em TV ou serviçoes de streaming, ainda estão para ser definidos.

É de canais como HBO e AMC, além da Netflix, que estão surgindo os grandes dramas, suspenses, o entretenimento de qualidade. É para as séries que os grandes atores e diretores estão indo agora, deixando seus Oscars na prateleira e procurando entender como manter o nível alto por mais do que 90 minutos de um longa-metragem comum.

Agora fique com o trailer da 3ª temporada de HofC e tente segurar a vontade de correr para ver as duas primeiras.

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