Fabíola Cunha

Quem não gosta de Pulp Fiction, bom sujeito não é

Quando vi “Pulp Fiction” pela primeira vez, eu contava 14 anos e os filmes eram uma ótima opção de entretenimento e também de expansão do conhecimento sobre outras culturas e comportamentos.

Fiquei chocada e maravilhada.

Chocada com a violência e a perversão daquele submundo surreal. Maravilhada com as cores quentes, o humor apimentado e as emoções fumegantes, servidos para comer na mão, sem talheres e bons modos.

Quentin Tarantino dirige Uma Thurman. Ele teve que implorar para ela aceitar o trabalho, lendo o roteiro inteiro pelo telefone até uma se convencer (Foto: Linda R. Chen/Miramax)

Quentin Tarantino dirige Uma Thurman. Ele teve que implorar para ela aceitar o trabalho, lendo o roteiro inteiro pelo telefone até Uma se convencer (Foto: Linda R. Chen/Miramax)

Eu nunca mais pude gostar de um filme que oferecesse menos.

Mesmo quem nunca viu, mas tem um mínimo de conhecimento sobre cultura pop sabe que é um divisor de águas. Aliás, uma provocação: você se acha “antenado” mas nunca viu “Pulp Fiction”? Pense de novo.

Inúmeras imitações irritantes apareceram nos anos seguintes, o termo “tarantinesco” ganhou força para definir imagens, sons e frases que parecessem saídas de seus filmes.

Mas como superar?

Como superar aqueles minutos iniciais quando Honey Bunny (Tim Roth) e Pumpkin (Amanda Plummer) decidem roubar um restaurante e a guitarra furiosa de “Misirlou” explode na tela anunciando o elenco?

Ou Jules (Samuel L. Jackson) recitando uma passagem da Bíblia sobre um Deus vingativo que na verdade Tarantino e o próprio Jackson inventaram? Os olhos imensos, apocalípticos. A fala arrastada: “Ezekiel twenty fiiiive, seventeeen…”

Ou Mia Wallace (Uma Thurman) dançando sozinha na sala de sua mansão, chapadíssima, ao som de “Girl, you’ll be a woman soon…”

E a trilha sonora? Marca registrada de Tarantino é o resgate de pérolas obscuras do cancioneiro norte-americano e mundial.

E a recuperação de carreiras estagnadas?
Aqui, John Travolta, que nunca havia sido e nunca mais seria es-pe-ta-cu-lar.

Nem imagino a pressão que o diretor sofreu (sofre?) cada vez que decide por o pezinho fora de casa e fazer um filme. Tarantino contava 31 anos quando “Pulp Fiction” foi lançado nos cinemas norte-americanos no dia 23 de setembro de 1994. Ele já havia recolhido sua Palma de Ouro em Cannes alguns meses antes e estava sendo saudado com O Salvador, O Messias cinematográfico.

Jovem, amalucado, sem formação acadêmica, ex-atendente de videolocadora (ele escreveu o roteiro de “Amor à Queima Roupa” no balcão de uma delas, onde trabalhava) ele foi indicado ao Oscar de melhor diretor em 1995 e perdeu para Robert Zemeckis, por “Forrest Gump” – a academia não estava pronta para o caos e optou pelo bom mocismo.

Até hoje não ganhou um Oscar como diretor.

Algumas bobagens (“Grande Hotel”) e outros grandes filmes vieram (“Bastardos Inglórios” e “Django Livre”, por exemplo) e Tarantino passou da barreira dos 50 anos relevante, aguardado, odiado e amado na mesma medida.

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Capa da última versão do roteiro, finalizada em maio de 1993, explica que o filme trata de “Três histórias sobre uma história”

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