Favari Filho

Que país é este?

Foi exatamente o que indagou o ex-diretor de Serviços da Petrobras, Renato Duque, ao ser interpelado pela Polícia Federal no dia 14 de novembro de 2014 na sétima fase da Operação Lava Jato, batizada de Juízo Final. Acusado de corrupção, Duque travou a conversa com o advogado por telefone no ato da busca e apreensão. A gravação é pública e pode ser encontrada na internet com uma simples googlada.

“O que é isso, cara! Que país é este?”, perguntou Duque ao causídico. Parafraseando o poeta, ora (direis) o que é isso? Certo, perdeste o senso! Respondo meio que de enxerido: este é o Brasil cuja corrupção deixou de ser exceção e passou a ser regra nos últimos doze anos. O questionamento do funcionário de carreira da estatal nomeado diretor em 2003 por influência de José Dirceu – então ministro da Casa Civil (sim, aquele condenado no processo do mensalão que, aliás, perto do petrolão ficou parecendo um faz de conta) – envergonha a todos os brasileiros que se veem diante do maior escândalo de corrupção da história.

A única coisa interessante do questionamento do ex-diretor é que remete a uma canção escrita em 1978 por Renato Russo. Quando a música homônima à fala de Duque foi composta, o autor não imaginava no que transformariam o Brasil algumas décadas depois. Certo que a canção foi gravada somente em 1987, pois conforme acreditava Renato havia esperança de que logo se tornasse obsoleta. No disco, entretanto, há uma informação que vale a pena ser reproduzida: “Que país é este? nunca foi gravada porque sempre havia a esperança de que algo iria realmente mudar no país (…). Isto não aconteceu e ainda é possível se fazer a mesma pergunta do título”. O texto no encarte do meu LP é de 1987 e, infelizmente, continuamos a repetir a questão em 1992… 1998… 2006… 2013… 2015…

O curioso é que desta vez a pergunta partiu de um acusado de corrupção diretamente ligado ao governo que fez o que fez na Petrobras, ou seja, algo “nunca antef vifto na hiftória defte paíf”. E não adianta agora os ativistas tentarem espalhar conversas sobre possíveis casos de corrupção de outros governos, que Aécio é isso ou que a Globo é aquilo, porque outros políticos e outros partidos, claro, podem também ter cometido deslizes, contudo o que se revela diariamente nos noticiários é que alguém institucionalizou a bandalheira. Quem? Quem? Quem? Garanto que não foi Raimundo Nonato.

Só para constatar, o PSDB nunca se colocou como oposição ao governo petista, há sim, uma polarização entre os dois partidos, mas os tucanos perderam a única chance de fazer história em 2006, quando ao invés de tripudiar sobre o escândalo do mensalão acreditaram ingenuamente, ou não, que a opinião pública mais a população não reelegeriam Lula. Portanto, não se trata de um golpe da “oposição” o pedido das ruas por impeachment, mas sim descontentamento geral da nação.

Claro que o iminente impedimento da governanta Dilma Rousseff pode causar um trauma no Brasil, como afirmou o governador Geraldo Alckmin, porém o caos é o primeiro passo para a reconstrução. O que estamos vendo é a derrocada do governo que, com o mesmo discurso separatista – aquele famoso “nós” contra “eles” no qual “eles” somos “nós”, cidadãos que não aprovam a corrupção e “nós” são “eles” os corruptos –, continua tentando desfocar do assunto principal, que se trata de um crime de lesa-pátria. Que país é este? Reitero ao Duque, infelizmente é o Brasil.

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