Favari Filho

Perfeição

Estivemos minha esposa e eu no último domingo (14) na 10ª Feira do Disco e Afins, evento já tradicional na cidade de Rio Claro e que reúne uma infinidade de amantes dos antigos, porém extremamente atuais elepês. Esta edição, muito bem organizada pelos amigos Julio, Jhonny e Jazz, aconteceu no Casarão da Cultura e contou com vários expositores e um sem número de discos interessantes. Um acontecimento perfeito!

Correndo os dedos sobre os vinis foi difícil escolher entre os que traria para casa e os que deixaria para os demais visitantes, entretanto, depois de uma pré-seleção em todas as bancas, separei algumas obras essenciais que faltavam em minha coleção. Entre outros, que não cabe citar por questão de espaço, encontrei um importantíssimo single que, depois de ser limpo e ter recebido novos plásticos, está ali na estante ao lado dos demais. ‘Perfeição’, datado de 1993, traz a canção homônima, que integra o álbum ‘O Descobrimento do Brasil’, da Legião Urbana, que foi a primeira a tocar nas efeêmes quando do lançamento do disco.

Creio que todos com mais de trinta conheçam a canção, pois tocou compulsivamente nas rádios e, mesmo passados mais de vinte anos, ainda é extremamente atual, pois expõe os mesmos problemas enfrentados pelos brasileiros, principalmente na política. Em uma das entrevistas em vídeo que guardo de Renato Russo, o compositor revela que a música foi composta a partir de uma levada criada pelo baterista Marcelo Bonfá e, como não bastasse, na hora de criar a melodia incluiu incidentalmente ‘O Bêbado e a Equilibrista’, de João Bosco.

Já a letra, praticamente um poema épico que discorre sobre o País, é um caso à parte e merece ser lida e relida diversas vezes, contudo vamos nos conter à frase “Vamos celebrar nosso governo e nosso Estado que não é nação”, que sintetiza bem a maneira como o Estado foi apropriado por um partido – que o distanciou da nação e o resumiu a um puxadinho no fundo do seu quintal de ideologias do século passado que não cabem (aliás, nunca couberam!) nem utopicamente em um Brasil livre e democrático.

Adiante. Quando peguei o disco nas mãos e li o seu título, cantei mentalmente – por força do impulso – justamente o trecho citado acima e refleti em como havia uma tendência nas músicas produzidas antes dos 2000 em tratar de temas relevantes que até hoje levam à reflexão. Fausto Wolff, mentor intelectual a quem sempre recorro, diz que o clássico de hoje é o popular de antes; não sei. Fico pensando no que pode se tornar clássico dentro de algumas décadas, seguindo esta lógica e levando em conta o que está sendo produzido atualmente pelo mercado fonográfico.

Enfim, o importante, porém, é que a feira foi um sucesso e que o público superou as expectativas dos organizadores e que muita gente saiu contente por encontrar cada raridade buscada. Que outros eventos como este continuem acontecendo na cidade, no Brasil e no mundo, para que mais pessoas possam procurar na música do passado um norte para a construção de um futuro musical mais aprazível, porque, se depender do presente (salvaguardando raríssimas exceções), o amanhã não aparenta ser nada promissor.

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