Favari Filho

Palavra

“Palavras não são más, palavras não são quentes; palavras são iguais, sendo diferentes”, exemplificou o cancioneiro popular. “Unidade linguística com um significado que pertence a uma classe gramatical que corresponde na escrita a um conjunto de sinais gráficos”, classificou o dicionário. “Precisamos evitá-las sempre que pudermos; quando não são traidoras, delas nos enamoramos. O homem sério não se transforma na palavra que escuta. O homem sério inventa a palavra que refuta”, transcendeu a poesia. Modestamente, faço uso da palavra para, além de nomear esta crônica, tentar criar algum sentido estético-existencial.

Foram as palavras que conduziram a minha caminhada até a profissão de jornalista. As palavras e nada mais! Na verdade, sempre gostei de escrever, porém como viver da escrita em um País que despreza a Literatura? Ser jornalista, portanto, era a opção mais próxima de manter uma relação de intimidade com as palavras, pois, na notícia, embora cada vez menor, o seu uso ainda tem algum valor e, enquanto a busca insana pelo novo [essa coisa antiga que a todos fascina] no jornalismo não a extinga para sempre, sigo avançando sinais.

A minha experiência com as palavras teve início na primeira infância com as visitas à Biblioteca Zeferina Quilici Tedesco, episódio sobre o qual pretendo discorrer em um texto futuro neste Confessionário Quinzenal. Depois dos poetas e escritores infanto-juvenis, cheguei aos jornalistas/cronistas. Adorava quando Ubaldo inseria uma palavra pouco usual em seu artigo dominical e abria um parêntese para lembrar “ao dicionário, hoje é domingo, dia de exercício”; também de quando Piza discorria sobre artistas e obras que eu desconhecia por completo; a ironia sagaz de Millôr; Nelson e a sua incredulidade com a humanidade; e, especialmente, Fausto com seu anseio exacerbado de tornar a todos mais humanos. Norteadores faróis…

Autores cujas obras continuam a formar leitores; um levando a outro e a outro e a outro em um constante Jogo de Amarelinha. O momento epifânico, todavia, aconteceu quando topei com as entrevistas d’O Pasquim, o hebdomadário que existiu em dois períodos distintos: de 1968 a 1991 e de 2001 a 2004 – dos quais coleciono da primeira versão as antologias reeditadas em livros e, da segunda, a hemeroteca completa como tesouro inestimável. Por falar em Pasquim, o Canal Brasil está transmitindo ‘As Grandes Entrevistas do Pasquim’, série produzida recentemente em que um grupo de atores lê [pois é, pasmem, LÊ!] as fantásticas entrevistas do jornal que, com palavras, buscavam revelar os entrevistados. Outros tempos…

Penso que a preocupação com a forma, o conteúdo e a estética da palavra levaram os autores citados e tantos outros a ocuparem o Olimpo da Literatura. Suas obras seguem ensinando a burilar, a observar meticulosamente a maneira como ficam dispostas no papel e, sobretudo, a manter uma relação de amor incondicional com as palavras; mas nem tudo são flores e o seu uso está perdendo a importância para a sociedade da imagem. Não ficarei surpreso caso o destino da escrita acabe emoldurado em um porta-retratos de instantes efêmeros sem palavras e sem cor, um quadro triste e cruel. Infelizmente!

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