Favari Filho

O jardineiro e o office-boy

Naquele amplo jardim muito bem cuidado em que se amontoam diversas histórias que poderiam ser narradas pelo simples sabor do gesto, os pássaros colorem as manhãs de sol com sons verdes e as de chuva com tons avermelhados, no intuito de esboçar alguma alegria. Há violetas, petúnias, bromélias, hortênsias e margaridas. No fundo, algumas orquídeas e uma sequência de lírios da paz. Há também insetos que colaboram para o encanto do cenário que se mantém intacto durante as quatro estações.

O terreno abraçado por ruas paralelas é protegido com muros que impedem que o jardim seja visto por milhares de pessoas que se cruzam sem se notar e não percebem as pequenas diferenças quase invisíveis que acontecem na rapidez desnecessária e cotidiana. Mínimas biografias construídas enquanto carros, ônibus e motos circulam entre transeuntes apressados. O sinal que abre a cada 48 segundos. A atendente da barraca na esquina que chega a vender mais de mil salgados por mês e que nos dias de verão vê dobrar o consumo de Coca-Cola. Outro dia um carro ficou parado por três horas em frente a uma loja de suprimentos para escritório que fica no meio do quarteirão. Vida que segue… Mais tarde veio à tona que o dono o deixou ali até encontrar um mecânico, que constatou problema na injeção. Tudo ao mesmo tempo…

Um office-boy desce do ônibus todos os dias às 8h02. Juninho, como é conhecido em todos os lugares, está sempre com os fones do celular no ouvido. Hoje é dia 13 de julho. Como a maioria dos meninos e das meninas de sua geração, o rapaz adora música. Não sabe a diferença entre One Direction e Rolling Stones, mas diz gostar de rock. O ponto de ônibus fica do outro lado da rua, em frente ao muro, e ainda que Juninho não saiba que há flores por todos os lados ou quem sejam Floyd Council ou Pink Anderson, o garoto segue seu rumo dividido entre “rocks”, papéis timbrados e filas de bancos.

Da mesma forma, todos os dias, o jardineiro Florisvaldo fixa os olhos no relógio ponto como quem fita o horizonte e durante dois ou três segundos sente um prazer estranho ao ver o ponteiro girar. Bate o ponto às sete da manhã para em seguida iniciar o seu trabalho, sempre da mesma maneira. Desenrola a mangueira presa a um aro de automóvel fixado na parede e a posiciona no pé de uma das doze árvores sete-copas iniciando assim a irrigação. Em seguida, com uma vassoura, amontoa as folhas em diversos pontos estratégicos para depois recolher em um grande saco preto com a pá de lixo. Repete todas as manhãs esse ritual mágico e impreterível. Às vezes passa horas inteiras acariciando uma alamanda e há quem diga que Florisvaldo conversa com as plantas.

Na loucura cotidiana que evidencia o contraste entre a crueza das ruas e a delicadeza dos jardins, as chances de Florisvaldo e Juninho se encontrarem são infinitamente mínimas, mas ambos estão sob a visão diária de Paulo Cesar que, de sua mesa cheia de papéis e problemas a resolver, no oitavo andar de um conjunto de escritórios duas quadras dali, os observa como que em um ritual enquanto sorve o café em uma caneca de matéria plástica. O jardineiro e o office-boy estão separados pelo muro de preocupações individuais, construído por pessoas que caminham sem saber para onde e para quê. Diante da janela, PC assiste a um milagre incompreensível que não ousa decifrar e constata que tudo segue seu curso independente dos personagens que – ainda que não se conheçam e não tenham nada em comum – compõem esse fascínio indizível e indivisível que é a vida.

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