Carine Corrêa

O feitiço do gengibre

Em todas as refeições da Uniluz (Nazaré Paulista/SP), o chá está sempre presente. Nós retiramos a caneca das estantes de madeira e vamos pegá-lo, logo abaixo da passagem em que colocamos as louças, entre a copa e a cozinha. Os pés neste momento devem estar com meias ou descalços sobre o carpete. No conforto de sentir o tapete nos pés, abrimos a garrafa que logo vai revelando o aroma da bebida quente. O que será? Hortelã? Camomila? Hibisco? Desta vez a fumacinha tocou meu nariz e já soprou em tom quente a presença do gengibre. Fez-se o início do feitiço. Nas minhas férias estive em Paraty (RJ), na terra natal de meu pai. Foi no dia 18 de agosto que estávamos meu pai, Tia Dita, prima ‘Dedéia’ e eu falando sobre as histórias da roça em Paraty, infância do meu pai e dos meus tios. Para abrir a roda de conversa, um chá com gengibre. Plim! Próximo à praia Corumbê, meus avós, papai e seus irmãos moravam em um lugar que antes era uma grande fazenda com exploração de escravos. Dos relatos, tia Dita conta que a vovó Antônia usava a folha de Jasmim para clarear as roupas. Conhecimento mais próximo dos amigos vegetais. Da poesia para a roda de prosa, tomo o último gole do chá preparado com gengibre. Por algum motivo, lembro-me da sensação do toque dos meus pés sobre o carpete da Uniluz. Lembro da minha vivência sobre resgatar raízes. Só não sabia que teria que resgatá-las não somente na minha ancestralidade, mas também como filha e neta. Nessa ausência de espaço-tempo das palavras que possibilitou esse teletransporte à Uniluz e a Paraty, estou tomando o primeiro gole do chá de 6 ervas que preparei e, quando dou conta de minha presença, volto para a sala da minha casa, aqui em Rio Claro. Deve ser porque também coloquei gengibre.

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