Favari Filho

Nota sobre música nº 2 – Ideologia

O Brasil, infelizmente, nas mais variadas esferas políticas sofre de um mal que corrói as engrenagens da democracia, ou seja, além da corrupção, tanto os partidos quanto os seus representantes se perderam em questões fundamentais para o desenvolvimento do bom combate político. Falta ideologia. Não raro assistimos a cenas pitorescas do ponto de vista ideológico como a de Maluf e Lula – que até bem pouco tempo atrás representavam bandeiras antagônicas – apertando as mãos como compadres que celebram um acordo tácito. Ou ainda, mais recente, Dilma Rousseff dividindo o palanque eleitoral com Fernando Collor. Isso para ficar somente nos casos recentes mais emblemáticos. As pessoas que nos representam não parecem estar preparadas ideologicamente e acabam se perdendo em seus discursos decorados, vazios e evasivos, sem nenhum aprofundamento técnico e ou teórico.

Para ficar somente no superficial do seu significado, até por questão de espaço, de acordo com o dicionário a palavra ideologia pode ser definida da seguinte maneira: i•de•o•lo•gi•a, substantivo feminino, 1. Ciência da formação das ideias. 2. Conjunto de ideias, convicções e princípios filosóficos, sociais, políticos que caracterizam o pensamento de um indivíduo, grupo, movimento, época, sociedade. Como podemos perceber, ideologia serve para distinguir grupos e ideias diferentes. Coisa que não vemos atualmente, pois o que parece é que todos os partidos e os seus representantes são e estão a favor e contra as mesmas coisas. Ou seja, seus discursos e suas intenções são constituídos a partir de conveniências. Enfim, esse é o cenário que se construiu nos últimos anos e, por isso, a nota de hoje é sobre Ideologia, que é também o título do terceiro álbum solo de Cazuza, considerado um marco na carreira do cantor.

Atualmente, o álbum em vinil pode ser facilmente encontrado nas prateleiras dos sebos por um preço razoável. Visceral e contundente, o destaque vai para a canção homônima que traz na letra a ânsia por algo que pudesse suprir o vazio existencial de duas décadas de silêncio. Vale lembrar que o disco foi lançado entre o período do fim da ditadura (1985) e da primeira eleição democrática por voto popular (1989), portanto, é extremamente significativo. Além de reunir outras canções de cunho político, entre as quais é possível citar “Vida Fácil” e “Brasil” – esta para a qual ainda pretendo dedicar outra nota –, a capa também causou certo furor quando do lançamento, pois traz misturadas suásticas com a estrela de Davi, entre outros símbolos com extrema carga ideológica.

Passados mais de um quarto de século do seu lançamento, a canção composta por Cazuza e Frejat é atual. Observe o trecho: “Meu partido é um coração partido. E as ilusões estão todas perdidas. Os meus sonhos foram todos vendidos tão barato que eu nem acredito”. Àquela época havia uma ânsia por encontrar um motivo para seguir, uma ideia para defender, um qualquer algo que fosse, e havia também a consciência de que existiam as opções, bastava escolher. Hoje, porém, uma geração inteira vive sem ao menos perceber o quanto está sendo manipulada. Agora que os muros foram todos derrubados parece ter ficado mais difícil enxergar do outro lado. Com isso, foi criada a ilusão de que tudo é igual, mas não é!

Hoje, em detrimento a um “conjunto de ideias e convicções” o cidadão comum é constantemente enganado com discursos calorosos e emotivos de políticos que se tornaram profissionais na arte de desdizer e que nada fazem para a promoção do bem comum. Da mesma forma, a nossa atual e pobre música brasileira, com raríssimas exceções, não mais instrui – ainda que, acredito, essa nunca foi e nem nunca será a sua função – e segue deturpando a mente dos jovens. A canção de Cazuza completa 26 anos com frescor inigualável. Por isso, para incentivar nossos representantes a se posicionarem ideologicamente, convido a todos para em coro cantar o refrão: “Ideologia, eu quero uma pra viver!”.

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