Favari Filho

Nota sobre música nº 3

O quinto mês do ano de 2015 tem início na próxima sexta-feira e a sensação que temos é de que, nós os brasileiros, estamos “caminhando contra o vento sem lenço e sem documento”, conforme apontou o cancioneiro. O trecho que remete a ‘Alegria, Alegria’, composição de Caetano Veloso, marca uma fase importante do Brasil em que a mensagem significava muito para a formação intelectual dos brasileiros. À parte todo o concretismo intrínseco na letra, cujas imagens sobrepostas remetem ainda a uma estrutura cinematográfica, a quadrupla sequência introdutória composta por mi, lá e dó sustenido, finalizada com um fá sustenido que precede a entrada da voz, soa como algo entre juventude eterna e revolução permanente.

Ainda que gravada na década de 1960 e tenha muita representatividade para a geração de 1968, a música chegou para a minha geração junto com a minissérie Anos Rebeldes – que retratou o país durante o período em que se convencionou chamar de “os anos de chumbo” – exibida entre 14 de julho e 14 de agosto de 1992. Ainda que de outra maneira, novamente o país vivia um momento político difícil – como o atual, inclusive – com uma descrença no governo, muitas denúncias de corrupção e um clima de recessão.

Talvez embalados pelos estímulos da tela, ou não, três dias antes do último capítulo da série, os caras-pintadas foram às ruas e, em passeata que reuniu milhares de pessoas na Avenida Paulista, estimularam a derrubada de Collor. Naquele momento, vale lembrar, da mesma forma que acontece com as recentes manifestações, havia uma vontade indômita daqueles jovens – com os quais compartilhei alguns ideais visto que, à época, tinha apenas quinze anos – de mudar o que estava diante dos olhos.

Com profunda característica de diversidade e apartidarismo, os caras-pintadas faziam questão de repelir a participação de qualquer representação política em um sinal claro de que os partidos existentes – àquela época e agora também – não davam conta das reivindicações. No dia 13 de agosto, Collor fez um pronunciamento em rede nacional de televisão, pedindo aos brasileiros que saíssem às ruas vestindo verde e amarelo, contudo no domingo (16), milhares de jovens nas capitais vestiram preto em sinal de luto contra a corrupção.

Mas o que pretendo neste pequeno registro, além de estimular o debate acerca da corrupção que avassala o país, é trazer à luz outros dois pontos importantes da canção. As duas vezes em que aparece o vocábulo “sol” – tanto na parte “o sol se reparte em crimes, espaçonaves, guerrilhas, em Cardinales bonitas”, quanto em “o sol nas bancas de revista me enche de alegria e preguiça, quem lê tanta notícia?”, o autor se refere ao jornal O Sol, idealizado pelo poeta Reynaldo Jardim, morto em 2011.

Com apenas seis meses de duração, o periódico entrou para a história e contou com grandes jornalistas que colaboraram para o seu sucesso como Arnaldo Jabor, Carlos Heitor Cony, Fernando Gabeira, Ziraldo e Zuenir Ventura. Mas isso aconteceu em uma época em que o texto era a parte mais importante de um jornal, quando a inteligência do leitor ainda não era subestimada. Em 2006, Martha Alencar e Tetê Moraes, registraram em um belíssimo documentário intitulado O Sol – Caminhando contra o vento, depoimentos de ex-integrantes e pessoas que de alguma forma fizeram parte do jornal, inclusive do próprio Caetano, vale a pena conferir. Quanto à novela que se transformou o governo Dilma Rousseff almejamos um epílogo semelhante ao do presidente mauricinho.

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2 Comentários

  • Beatriz
    2 de maio de 2015 - 01:18 | Permalink

    Olá! Boa noite. Sou aluna da pedagogia e estou fazendo meu tcc sobre a música. O tema é : A importância da música para o desenvolvimento da criança. Gostaria de saber se você tem alguma leitura para me indicar. Desde já eu agradeço.

  • Favari Filho
    2 de maio de 2015 - 23:54 | Permalink

    Oi Beatriz, respondi sua pergunta pelo email, ok?

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