Favari Filho

Nota sobre cinema nº 5

Trinta anos. Este ano completam três décadas desde o lançamento do filme ‘The Breakfast Club’, popularmente conhecido no Brasil como ‘Clube dos Cinco’. O longa-metragem do cultuado diretor John Hughes (de Gatinhas e Gatões, Curtindo a Vida Adoidado e Mulher Nota 1000), morto em 6 de agosto de 2009, narra um dia na vida de cinco adolescentes que por mal comportamento na escola ficam detidos durante um sábado inteiro e, não bastasse, ainda têm de redigir um texto com mais de mil palavras sobre o que pensam sobre as próprias vidas e os atos cometidos.

Quando da morte de Hughes estava lendo Auto-de-Fé do Canetti, ainda lembro o momento exato em que soube da perda desse cara que fez muita diferença para a minha geração e que, com certeza, terá a obra cultuada durante muito tempo. O longa, uma obra fantástica que contribuiu extremamente para a formação de muitos jovens que, assim como eu [para além de amar os Beatles e os Rolling Stones], cresceram assistindo a Sessão da Tarde na tevê, é de uma beleza intrínseca repleta de sentimentos humanos. Engraçado perceber como o tempo passa rápido demais, ontem mesmo enquanto passava as tardes deitado no sofá da casa dos meus pais, acreditava acumular parte das características de cada um daqueles cinco inesquecíveis personagens. Hoje, portanto, tanto os atores quanto eu, temos idade para sermos pais de adolescentes com a idade dos personagens.

Três décadas ficaram para trás desde que este filme foi lançado e cravado definitivamente nos corações daqueles que acreditam que a existência vale muito mais que apenas conceitos pré-estipulados e sensações momentâneas; a vida e o ser humano são maiores e transcendem qualquer expectativa que possa ser criada, mas o tempo – ah, o tempo! – é atroz e faz com que um dia, diante do espelho olhos nos olhos pupilas dilatadas, percebamos o quanto envelhecemos e tudo o que passamos começa a ser armazenado em um local mezzo vago entre a história e a memoria e que, às vezes, vem à tona.

Percebi a rapidez do tempo ainda agora, enquanto dirigia pelas ruas escuras da Cidade Azul. Lembrei aquele disco do Pete Murray que baixei em 2008 e que ainda não ouvi completamente; também daquele livro da Virginia que comprei em 2006 e que ainda não li; aquela entrevista do Caetano na Rolling Stone e… tantas coisas ficaram para trás… Acabo de lembrar o primeiro beijo em minha esposa que, agora contabilizando, aconteceu cinquenta e um dias depois que Hughes partiu, “god my fingers burn, now when I think of touching your hair”, pensei depois que nos despedimos no portão de sua casa.

Mas voltando ao filme (vou cometer uma indiscrição [spoiler], não me culpem). Os minutos finais – assim como todo o enredo – são carregados de uma intensidade emocional, entretanto o conjunto de cenas finais em que os cinco descem a escadaria da escola e Brian (Anthony Michael Hall) entra no carro do pai; seguida pelo beijo de despedida de Allison (Ally Sheedy) e Andrew (Emilio Estevez); finalizada com John (Judd Nelson) recebendo de Claire (Molly Ringwald) o seu [dela] brinco (o qual o rebelde coloca na orelha antes de sair andando pelo gramado ao som de “don’t you forget about me, don’t, don’t, don’t, don’t, don’t you forget about me”) são de uma poesia pessoniana.

Mas não é só, a poesia segue quando a câmera volta para o interior da escola onde o diretor (Paul Gleason) lê o bilhete (em tradução livre): “Caro Sr. Vernon, aceitamos o fato de que tivemos de sacrificar um sábado inteiro na detenção por tudo o que fizemos de errado, porém acho loucura fazer a gente escrever sobre o que pensamos e o que fizemos. Você nos vê como deseja ver, nos termos mais simples e com as definições mais convenientes. O que descobrimos é que cada um de nós é um cérebro; um atleta; um caso perdido; uma princesa; e um criminoso. Isso responde a sua pergunta? Atenciosamente, o Clube dos Cinco.” Lindo, não? Vale a pena assistir o filme que realmente mexeu comigo e que merece por todos os motivos ser a nota de número 5.

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