Favari Filho

Nota Bene

Enquanto os vencedores da eleição, sedizentes defensores da democracia, não aceitam a verdade de que estão agindo com a mesma emoção pré-adolescente há mais de trinta anos, depositando a culpa por seus medos em um monstro imaginário; enquanto o atual governo nos enche de dúvidas a respeito de sua confiabilidade, pois denúncias consecutivas e casos concretos de corrupção estampam as capas da “mídia golpista” (leiam-se, aquelas que não são subsidiadas pelo governo); enquanto alguns ‘intelectualoides’ creem que há diferenças estruturais entre PSDB e PT e confundem propositalmente ainda mais a população, que sente a crise principalmente nos supermercados e nos postos de gasolina; enquanto tudo isso acontece, fico sabendo que o Negrete morreu.

Junto com o outro Renato, o Russo, Renato Rocha, Dado Villa Lobos e Marcelo Bonfá formavam o FabFour brasileiro da minha geração. Juntos gravaram os três primeiros discos da banda de Brasília: “Legião Urbana” (1984), “Dois” (1986) e “Que país é este?” (1987) e transformaram a Legião Urbana na mais importante banda de rock brasileiro de todos os tempos. Quem discorda da afirmação, com certeza, vai preferir Beatles a Rolling Stone, mas tudo bem, apenas questão de estética musical.

O Negrete (alcunha pela qual era tratado) não somente ajudou os colegas a construir o legado da banda, como é coautor de sucessos como ‘Angra dos Reis’ e ‘Quase sem querer’, além de ter fundamental participação no arranjo da fenomenal ‘A dança’. Fãs que, como eu, acompanhavam cada passo do grupo e que colecionavam (tenho as minhas guardadas até hoje) fitas de VHS gravadas dos programas de tevê – em especial da MTV – ou que vinham direto do fã clube, não entendem quando o baixista deixou a banda.

Muito foi falado, mas o motivo que afastou Renato Rocha da banda é apenas mais um daqueles episódios que afetam somente os grandes grupos de rock e que nunca saberemos ao certo, contudo constam da biografia desentendimentos entre os integrantes, problemas pessoais do baixista com bebidas e atrasos para os ensaios e shows. Outro dia conversava com um colega de trabalho e discutíamos como a música brasileira vive um momento pobre em conteúdo. Nunca mais existiu uma banda como a Legião Urbana, que somava musicalidade e conteúdo.

Sem musicalidade e, principalmente, conteúdo, os jovens apequenam sua capacidade de atribuir sentidos aos discursos, acreditando, por exemplo, nas mentiras que contam os vencedores da eleição, que estão no comando do país há doze anos e que querem, a todo o custo, botar a culpa de suas trapalhadas no antecessor. Mas voltemos ao artista: a polícia fez vistorias no local em que Renato Rocha foi encontrado morto e não havia sinais de violência e nem de drogas. Um ataque cardíaco levou o Negrete e agora meia Legião Urbana está no céu. Bom somente para os anjos, que agora têm mais um colega para conversar em sua língua mater. Falta agora a governanta Dilma Rousseff dizer que a culpa da morte desse ícone da música brasileira também é de FHC!

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