David Chagas

No corpo, esta marca

Sempre trouxe comigo desde que o conheci, por sua obra, o sofrimento de Cruz e Sousa, poeta do decadentismo brasileiro, por apelido, Dante Negro, nome carinhoso que lhe deu José Veríssimo, valorizando, com isso, a genialidade de seus versos e o reconhecimento da crítica literária universal como um dos cinco melhores escritores de sua geração. Quando jovem professor, cuidava para não deixar exceder minha admiração pelo poeta nem ir além do compromisso de orientar sobre a leitura de sua obra, fazendo descobrir em seus poemas, mais que a beleza deles, a verdade que guardavam.

Algum ex-aluno meu, ao ler o parágrafo anterior, talvez entenda, tardiamente, o que, intimamente, me obrigava a tratar o genial poeta brasileiro de modo tão especial, indignado com a injustiça imposta pela sociedade brasileira por desconsiderá-lo sabendo-o genial, mas negro, numa terra em que brilhar sempre foi privilégio de brancos.  Só depois de morto e internacionalmente famoso, o pais se rendeu à grandeza de seu trabalho poético e de seu nome.

Pensar, passados mais de cento e cinquenta anos, que o comportamento da maioria deste grupo humano pouco ou nada se modificou. Digo isso, não só em razão do que sei e leio, mas das provações por que passo em razão do tom da pele que nos envolve e da aquisição de saberes a que tive acesso. Sabe, por certo, da fala de Dunga, técnico da seleção brasileira a respeito das pancadas que recebe e ouviu as comparações imperdoáveis que fez. De nada adiantaram as desculpas, a quem entende, no texto, a motivação de suas palavras.

Cruz e Sousa, por iguais razões, foi destes que não pôde viver. Aguentou trinta e poucos anos em meio a muito sofrimento. Não fosse a grandeza de espírito do general catarinense que fez dele o filho que não teve, dando-lhe nome, inclusive, talvez não tivesse nem mesmo a oportunidade de revelar sua inteligência privilegiada.

Maria Júlia Coutinho, jornalista, vítima de injúria e crime racial foi quem, agora, provocou em mim estas lembranças todas que rodeiam minha alma. O caso bastante propalado, fez com que muitos emprestassem seu nome para apoiar a jovem apresentadora que, desde sua estreia, vem sendo obrigada a lidar com a intolerância.

Quem não sabe quantos foram, como ela, vítimas de injúria racial, em campos de futebol de diferentes países, inclusive no Brasil, onde deveria aflorar, entre humanos, a igualdade entre todos? Local propício, inclusive, para  a supremacia da cor, graças à ginga natural que têm os negros, seus dribles bem desenhados graças ao ritmo imposto às pernas e aos pés, a ponto de parecerem predestinadas a estas grandezas. Quantos?!

Quantos não foram vítimas como Maria Júlia, em salas de aula, espaço onde não deveria, jamais, haver lugar para diferenças, sofrendo troças, desrespeito, atos de violência tal, sob a cumplicidade da própria escola ou de líderes mal preparados à frente delas, incapazes de perceber a angústia “não das crianças cor de ouro e rosa,/ mas dessas que o vergel das esperanças/ viram secar, na idade luminosa”? Quantos?!

Estas crianças, como fala Cruz e Sousa, as “que vêm da negra noite/ dum leite de venenos e de treva/ dentre os dantescos círculos do açoite,/ filhas malditas da desgraça de Eva”, parecem não ter direitos. Há distintas formas, muitas delas subliminares, de impor sofrimento por trazerem “na pele essa marca”  e “essa estranha mania de ter fé na vida”.

Ignorar, fechar os olhos para comportamento repulsivo como este, assistir a cenas diárias de preconceito explícito e permanecer em silêncio ou de olhos cerrados, é autenticar “a tolice, o pecado, o logro, a mesquinhez” que habita o espírito humano, capaz de fazer mais tristes estas “tristes criaturas/ caminhando por desertos vagos/ sob o aguilhão de todas as torturas/ na sede atroz de todos os afagos”.

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