Fabíola Cunha

Não tenho nada a ver com isso!

Sabe quando você embarca em um projeto coletivo e vê ele tomando forma de um jeito que não te agrada, com influência de gente que você não queria por perto e sobretudo resultando em algo que você considera desastroso? Pois é, isso acontece no cinema também.

David O. Russel é um diretor queridinho por seus dramas equilibrados com humor e esperança, sem babaquice, como “O Lado Bom da Vida”, que deu a Jennifer Lawrence o (prematuro) Oscar de Melhor Atriz e mostrou que Robert De Niro ainda sabe o que está fazendo.

David O. russel (no centro) dirige Jennifer Lawrence e Bradley Cooper em "O Lado Bom da Vida"

David O. Russel (no centro) dirige Jennifer Lawrence e Bradley Cooper em “O Lado Bom da Vida”

Mas há muito tempo atrás…não, na verdade há apenas 7 anos, ele dirigiu um filme chamado “Nailed”, que nunca foi terminado por causa da monstruosa quantidade de coisas que começaram a feder na produção. David tirou o cavalinho da chuva na época, mas agora vai ter que ver o filme lançado com o nome de “Accidental Love”. Dizem as más línguas que o que estava filmado foi grosseiramente costurado na edição sem cenas cruciais para o entendimento da trama.

Cartaz do filme que será lançado sete anos após o início da produção

Cartaz do filme que será lançado sete anos após o início da produção

O elenco, veja só, é bom! Jake Gyllenhaall e Jessica Biel protagonizam como um jovem senador e uma garçonete que se encontram e se apaixonam quando ela é deixada com um prego na cabeça pelo hospital, por não ter plano de saúde (sim, se você acha a saúde no Brasil um caos, imagine ficar doente nos EUA).

O diretor está tão envergonhado do pequeno frankenstein cinematográfico que não permitiu que seu nome fosse colocado nos créditos e o filme sai então com o pseudônimo “Stephen Greene” na direção.

Casos como esse acontecem quando o diretor perde completamente o comando da produção, seja por problemas financeiros, seja por interesses do estúdio que não batem com seus interesses, seja por abandono do projeto pelos atores principais. O Sindicato dos Diretores da América (Directors Guild of America) até permite o uso de pseudônimos por seus associados quando a vergonha é muito grande.

O nome “Alan Smithee”, por exemplo, foi usado várias vezes por diretores que não queriam ser ligados a produções que consideraram ruins. Um caso notório aconteceu em 1997: o filme “Hollywood – Muito Além das Câmeras” contava a história de um pobre coitado chamado…Alan Smithee, que tentava sequestrar a produção de um filme para fazê-la do seu jeito. Acontece que, na vida real, o diretor Arthur Hiller (do clássico do chororô “Love Story – Uma História de Amor”) viu a edição final ser modificada sem sua permissão e recusou assinar o produto final, ou seja, o filme que satiriza o uso do pseudônimo Alan Smithee foi lançado com Alan Smithee como diretor. Entendeu?

Já em 2000, o filme “Supernova” também passou por problemas na produção e deixou seu diretor Walter Hill chateadíssimo. Ele apelou ao sindicato para tirar seu nome do longa e, como o nome Alan Smithee já estava desgastado, conseguiu colocar “Thomas Lee” como pseudônimo. Detalhe: o estúdio tentou melhorar o filme chamando ninguém menos que Francis Ford Coppola para dar um tapa na direção e edição… mas nem o diretor da Trilogia O Poderoso Chefão conseguiu acertar o ponto da receita desandada e o longa foi lançado direto para o buraco negro do fracasso.

Aqui no Brasil um caso recente de diretor que recusa responsabilidade pelos estragos que fazem com seu trabalho aconteceu na semana passada, com a versão para TV da cinebiografia de Tim Maia. A Globo dividiu o filme em dois capítulos e colocou depoimentos reais em meio à ficção. Ok. Aí surgiram as alegações de que a versão televisiva amenizou situações que mostravam Roberto Carlos como uma pessoa, assim, meio insuportável e desprezível. Em seu perfil no Instagram, o diretor do longa Mauro Lima alertou seus seguidores a não assistirem à atração: “Sugiro que não assistam essa versão na Globo. Trata-se de um subproduto que não escrevi daquele modo, nem dirigi ou editei”.

"Eu vou querer uma torta de climão servida quente, por favor"

Babu Santana na cinebiografia: “Eu vou querer uma torta de climão servida quente, por favor”

Bom, é isso. Agora quando você estiver insatisfeito com seus coleguinhas de grupo naquele trabalho irrelevante da faculdade, querendo tirar seu nome do texto final, lembre-se que diretores de cinema na zilionária Hollywood também ficam com o c* na mão quando veem a m***** que eles mesmos fazem ou que não conseguem impedir que façam.

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