Carine Corrêa

Na gota de orvalho

O dia amanheceu, e as folhas da árvore na calçada estavam úmidas de orvalho.

Muitos não fazem ideia, mas quando você olha para uma gota de orvalho, uma mínima gota de orvalho, não imagina que neste mesmo instante ela está sendo cenário de uma epopeia da microbiologia.

Chega mais perto, vamos penetrar nesta gota de orvalho, como se fôssemos um raio de luz incidente que se torna refratado.

Estamos dentro da redoma d’água. Um ser microscópico está lá na dele. Vamos chamá-lo de Plóc. Bate um ventinho mínimo, uma brisa fraca, mas já o bastante para balançar o líquido do orvalho e fazer o ser microscópico escorregar, ou melhor, flutuar, até um outro local da gota onde outro ser microscópico – vamos chamá-lo de Cróp – está à espreita para devorar o Plóc. Os dois serzinhos, Plóc e Cróp, saem em confronto pela sobrevivência, flutuando pela gota de orvalho adentro.

Então o herói entra em cena. Um ser chamado Tardígrado, o micro animal mais durão que existe. Sobrevivendo a condições ambientais extremas, seja um vulcão flamejante ou o deserto seco, nosso herói Tardígrado existe desde o período Cretáceo, tipo 145 milhões de anos atrás. Ou seja, desde o ápice dos dinossauros na escala evolutiva.

E em dias de hoje, o Tardígrado está lá boiando na imensidão da gota de orvalho, enquanto Plóc e Cróp se degladiam pela própria sobrevivência. Uma grande onda acústica faz vibrar o líquido de orvalho, é um barulho grave, é “ronco do estômago” do Tardígrado – caso eles tivessem estômago – que simplesmente faz “glup” no Cróp e, sem querer, salva o pobre do Plóc, que estava lá quietinho na dele. Assim, nosso Tardígrado fofo se torna o super-homem da gota de orvalho.

Uma mínima gota de orvalho virou cenário para esta epopeia da microbiologia.

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