Favari Filho

Meu caro Thiago,

acabo de assistir na TV Cultura ao primeiro programa intitulado ‘Pós Provocações’, uma singela homenagem ao apresentador de ‘Provocações’, Antônio Abujamra. A série de três programas conta com as presenças de Ugo Giorgetti (cineasta), Vera Holtz (atriz), Jefferson Del Rios (crítico de teatro), Ida Vicenzia (crítica e escritora), Gregório Bacic (diretor de ‘Provocações’) e André Abujamra (músico e filho de Abu), que se reúnem para discorrer sobre o mestre Abu.

Lembra quando você me ligou quase meia noite dizendo que estava passando um programa bacana e que eu precisava ver? Pois é, lá se vão quinze anos, bro. Era terça-feira e tínhamos acabado de sair da escola; estávamos no segundo ano do Ensino Médio. Quanto tempo… e somente agora há pouco – enquanto assistia ao programa – fui me dar conta de que o Abu morreu… o Abu morreu Thi! Ainda está tão presente (e sempre vai estar) aqui dentro de mim e, creio, que de você também.

Quinze anos amigo, desde que a gente teve o primeiro contato com o gênio da dramaturgia que tanto nos ensinou sobre Pessoa, Brecht, Nietzche, Proust e… e outros de igual ou maior quilate… Há uns dois anos, assisti ao monólogo “A Voz do Provocador”, no teatro de Cordeirópolis. Que interpretação… que respiração… a cada pausa dramática uma nova emoção… Abu era foda! Perdoe este texto, irmão, carregado de reticências e emoção… reticências que, aliás, como disse o poeta, “são os três primeiros passos do pensamento que continua por conta própria o seu caminho”… o nosso caminho (?)…

Era ano 2000 e estávamos na mesma classe; eu um estudante temporão que retornava à escola depois de oito anos afastado e você um garoto de dezesseis anos com uma genialidade notavelmente fenomenal. Logo, ficamos amigos – talvez por admiração mútua: eu por sua capacidade de introspecção e você por minha inclinação a expansividade, qualidades que, somadas, davam o equilíbrio que trazia todos para perto no intuito de comungar (junto da gente) não somente o mundo novo que estávamos construindo, mas também este velho mundo (ah, se eu me chamasse Raimundo!) que esperávamos modificar.

Ali, nos corredores da E. E. Marciano, fundamentei a ideia do jornalista que queria ser (sim, porque já sabia que o seria desde o início da década de 1990 quando atuava como ajudante de pedreiro na casa do representante do Estadão e me deparei com o primeiro jornal, lembra? – já contei esta história diversas vezes) e você estava do meu lado. Aquele primeiro texto, que escrevemos a quatro mãos e que publicamos no tabloide da escola, ainda guardo o recorte e, mesmo que não concorde mais com o que escrevemos, fico imensamente feliz por termos escrito. Éramos revolucionários… Assim como ensinou Schopenhauer, ao contrário das pessoas comuns que apenas passavam pelo tempo, tentávamos usar o tempo em nosso favor…

Thiago e eu nos tempos de colégio

Thiago e eu nos tempos de colégio

Durante quase meia década a gente se viu todo dia, porém, agora, há anos que não falamos pessoalmente. Todavia, estou certo de que a nossa amizade continua a mesma e que quando nos encontrarmos face to face continuaremos o nosso bom e velho papo de onde paramos, como se o tempo não tivesse passado e todo o passado fosse ainda presente. Eu me casei, você encontrou um namorado com o qual há anos segue construindo uma bela história. A Vi e eu ainda mantemos exposto sobre a geladeira aqui de casa o presente que vocês nos deram no casamento.

A amizade – como bem sabemos amigo – ao contrário da matéria efêmera e transitória é um amor que nunca morre, já certificou o poeta. Mas por falar em morte, no próximo domingo completa dois meses que nosso querido Abu partiu para estrelar outras peças e recitar outros poemas (quem sabe?) em “outros satélites de outros sistemas [onde] qualquer coisa como gente continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas”. Como cantou aquele outro poeta que tanto gostamos: “o tempo não para” e a saudade é uma forma de manter vivo o afeto.

Para rememorar o Abu que, durante muito tempo foi nosso (maior) mestre intelectual, o poema predileto (tanto seu quanto meu) recitado de forma grandiosa e inesquecível. Ciao!

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