Favari Filho

Memória de Natal

Substantivo feminino cuja finalidade é conservar estados de consciência passados, a memória é mesmo algo surpreendente que continua gerando especulações. Na literatura, é definida como um relato em primeira pessoa do singular que visa à reconstrução de um tempo que passou, como que algo inventado. No entanto, sempre que penso no porquê de determinadas memórias permanecerem vivas, o inexplicável surge imponderável.

1986. Como costumeiramente acontecia em todos os anos, passamos o Natal na casa de minha avó paterna, no Jardim Cândida, em Araras. Ali, naquela casa que mantém ainda as mesmas características há quase três décadas, pais, filhos, tios, sobrinhos, primos e amigos celebravam o feriado cristão em duas etapas: a ceia na noite do dia 24 e o almoço no dia 25. Lembro que ganhei uma bola de basquete, um esporte pouco comum no País do Futebol, mas que, à época, fui influenciado pelo longa-metragem ‘O garoto do futuro’.

Era um tempo em que não sobravam cadeiras vazias em volta da mesa e que palavras como ‘Plano Cruzado’, ‘Abertura Política’, ‘Dilson Funaro’, ‘José Sarney’, ‘Eleições’, ‘Orestes Quércia’, ‘Milton Severino’, ‘Warley Colombini’ eram comuns entre os meus familiares. Eu ouvia tudo sem entender quase nada, mas acreditando se tratar de coisas muito importantes para o futuro que me aguardava, logo ali, para depois da ponte que liga a inocência da infância ao realismo da vida adulta. Enquanto os adultos discutiam, as crianças brincavam na calçada larga repleta de sonhos espalhados. Minha prima e eu, junto dos nossos amigos da rua, transformamos aqueles momentos, para mim, em eterna e doce lembrança.

Quando cruzo a Vicente Blanco com a Max Schmidt ainda consigo ouvir Tim Maia e Gal Costa cantando ‘Um dia de domingo’ no Samsung Garrard Gradiente que ficava na estante da sala, e as vozes dos parentes e amigos misturadas e incompreensíveis como em Babel. Naquele lugar, pouco tempo depois, dei a minha primeira partida em um automóvel, no Maverick “seis canecos” do meu tio. Naquele lugar, vivi momentos inesquecíveis ao lado de pessoas [quantas saudades…] de que a falta de tempo e os compromissos da vida adulta me roubaram o contato. Naquele lugar, atrás da Paróquia Santa Cândida – onde junto de vó Jacira assistia à missa dos sábados à tarde, mantenho o meu tesouro memorial; a minha “Rosebud”.

Aquele foi um Natal inesquecível, digno de ser parido por Mnemosine, pois, para mim, como que carregasse algo de musa, ainda gera inspiração. Enfim, não creio que haja um motivo extraordinário para registrar esse momento, cujos gosto e cheiro estão intrínsecos e que quase posso tocar, a não ser pela proximidade do Natal. Portanto, a todos que acompanham há quase dois anos neste espaço a minha vã luta com as palavras, desejo uma noite e um dia de Natal inesquecíveis, para que o exercício da memória – independentemente de sua definição – possa continuar a ser praticado, hoje e sempre. Feliz Natal!

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