Favari Filho

Manoel de Barros e a nossa cotidiana desventura política

Manoel de Barros e a nossa cotidiana desventura política

O meu poeta predileto sem sombra de dúvida é o português Fernando Pessoa cuja obra resulta de uma vida dedicada à criação de heterônimos e a abordagem de temas extremamente subjetivos. Pessoa foi um intelectual que optou por sentir o impacto das coisas. Sua escrita emociona, comove e, através de suas muitas vidas inventadas, qualquer ser humano pode experimentar, cada qual à sua maneira, o sentimento das coisas em sua alma e vice-versa. Dos seus heterônimos o meu favorito, para o qual retorno quase que diariamente, é Álvaro de Campos, um engenheiro português de educação inglesa que, influenciado pelo simbolismo e pelo futurismo, apresenta uma dose significativa de niilismo em seus escritos.

Os primeiros poemas de que me recordo a leitura estavam naqueles livros didáticos de Língua Portuguesa distribuídos pelo Estado nas escolas públicas. Depois passei a frequentar a biblioteca que tinha próxima a minha casa e, cada vez mais, fui me apaixonando por essa forma de expressão que, como disse outro poeta, não compra sapato, mas ensina a caminhar. Algo que está além da matéria e das coisas do mundo, a poesia, assim como a filosofia, é muito importante para o nosso interior. Ambas são áreas do conhecimento com as quais e sem as quais o mundo permanece tal e qual, porém, intrinsecamente, sofremos transformações significativas quando entramos em contato.

Há duas semanas o país perdeu um ícone da literatura, um homem que transbordava poesia e que tinha o desejo de ser lido pelas pedras. Ao lado de Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto, Manoel de Barros figura entre os maiores poetas do Brasil devido à peculiaridade de sua obra literária que resulta em um constante e eterno desarrumar da linguagem, pois dizia não gostar da palavra acostumada. Durante a trajetória dedicada à poesia e em seus quase um século de vida, recebeu vários prêmios literários, entre os quais dois Jabutis. Sem dúvida foi o mais aclamado poeta contemporâneo acumulando diversas homenagens, inclusive a de Drummond que, enquanto ainda escrevia, recusou o epíteto de maior poeta vivo do Brasil em favor de Manoel de Barros.

Nascido em 19 de dezembro de 1916, em Cuiabá, Manoel Wenceslau Leite de Barros além de poeta era advogado e fazendeiro. Chegou a ser comunista quando jovem, mas rompeu com o partidão quando o Cavaleiro da Esperança, Luís Carlos Prestes – depois de passar dez anos preso e de ter a mulher, a judia Olga Benário, entregue para a Alemanha – apoiou o queremismo (movimento político surgido em 1945 com o objetivo de defender a permanência de Getúlio Vargas na presidência da República), uma atitude incompreendida por grande parte dos ditos camaradas, pois foi justamente Vargas o mandatário tanto de sua prisão quanto da entrega de Olga aos nazistas. O apoio revela que desde sempre a conveniência integra o nefasto jogo de interesses na política.

Imagine como o poeta deve ter se sentido ao constatar nas eleições passadas que uma entidade tradicional da esquerda brasileira, ligada ao Partido Comunista, apoiou a candidatura de Fernando Collor ao senado. Manoel de Barros partiu, mas sua poesia certamente vai sobreviver a muitas gerações sempre cultivando um pouco de alento para combater com palavras que nos leva para dentro as agruras políticas e a barganha nefasta entre partidos. O poeta se foi, mas viveu o bastante para assistir a derrocada dos valores e provavelmente deve ter concluído como o fez Machado de Assis, em 1895, em crônica publicada no Jornal A Semana na qual o Bruxo de Cosme Velho concluiu sabiamente: “Eu julgo as coisas pelas palavras que as nomeiam e basta ser partido para não ser inteiro.” Quase cento e vinte anos depois, a máxima continua atual, pois os partidos todos significam a mesma coisa, ou seja, a total ausência de doutrinas e ideologias.

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